Dentro da mala de Hana cabe a Humanidade

Seria uma experiência como tantas outras do período mais negro da História europeia recente não fosse a sua contemporaneidade. Uma mala recebida num centro de estudos em Tóquio despertou o interesse de um grupo de miúdos que, ajudados pela responsável do projecto, foram à procura da sua antiga proprietária. Hana morreu em Auschwitz, mas o seu irmão sobreviveu. George Brady vem ao território para falar do Holocausto numa sessão na Universidade de Macau.

Isabel Castro

Malas como as de Hana há às centenas no Museu de Auschwitz. À chegada ao maior campo de concentração nazi, os bens dos judeus condenados à reclusão – a maioria deles, à morte – eram retirados aos seus proprietários. Hana ficou sem a sua mala e sem a vida logo a seguir. Tinha 13 anos.

Mais de meio século depois, a mala de Hana foi emprestada pelo Museu de Auschwitz a um pequeno centro de estudos sobre o Holocausto no Japão. O nome pintado a branco suscitou a curiosidade dos miúdos que tinham contacto com o centro. Fumiko Ishioka, a responsável por este grupo de estudos pouco popular em Tóquio, decidiu ir à procura da história de Hana.

Ishioka descobriu que a adolescente morreu mas que o irmão sobreviveu. E em torno da curta vida da menina judia nasceu um projecto virado para os miúdos de hoje. Foi feito um livro e um primeiro documentário. Mais recentemente, a história de Hana deu origem a um segundo filme, do realizador Larry Weinstein. “Inside Hana’s Suitcase” é projectado este fim-de-semana no Festival de Cinema Judaico de Hong Kong.

Na terça-feira à tarde, pelas 16h, a película passa no Centro Cultural da Universidade de Macau (UMAC), numa sessão que é muito mais do que uma ida ao cinema. No auditório vão estar o octogenário irmão de Hana, George Brady, a investigadora Fumiko Ishioka e Larry Weinstein. “Inside Hana’s Suitcase” será assim uma oportunidade para conhecer um sobrevivente do Holocausto e duas pessoas que, em áreas profissionais distintas, desenvolveram uma relação especial com uma menina de Nove Mesto morta em 1944.

Holocausto, esse bicho desconhecido

A ideia de trazer filmes sobre o Holocausto e os seus protagonistas a Macau partiu de Glenn Timmermans, docente da UMAC. O responsável pela organização desta iniciativa estabeleceu uma ponte com o Festival de Cinema Judaico de Hong Kong, que empresta as películas e os convidados especiais de cada edição.

Esta vinda a Macau de uma parte do que é mostrado na região vizinha aconteceu, pela primeira vez, no ano passado, por esta altura do ano. Na Universidade esteve Alex Kurzem e o documentário “A Mascote”.

O judeu bielorrusso que escapou ao fuzilamento quando tinha apenas cinco anos – e que sobreviveu sem revelar a sua identidade tornando-se, ironicamente, na mascote de uma brigada letã das SS – é um caso único no mundo. O facto de não ter passado por nenhum campo de concentração – esteve na linha da frente da Segunda Guerra Mundial a acompanhar o batalhão que o salvou desconhendo as suas origens familiares – faz com que a sua história seja muito diferente daquela que é contada este ano. George Brady tem a experiência de Auschwitz.

Há oito anos em Macau, Glenn Timmermans começou a organizar este tipo de iniciativas – que se destinam, sobretudo, a alunos das escolas secundárias – depois de se ter apercebido que o momento mais significativo da História europeia do séc. XX era praticamente desconhecido entre os seus alunos universitários.

“No meu segundo ou terceiro ano em Macau, comecei a ensinar Literatura do séc. XX. Porque acredito que o Holocausto é o evento-chave da História do séc. XX, senti que não era possível ensinar Literatura a pessoas que não sabiam o que foi o Holocausto”, explicou o docente ao PONTO FINAL, não escondendo o “espanto” e o “choque” que sentiu quando se apercebeu que alunos do ensino universitário ignoravam o massacre de milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

“Pensei que talvez só conhecessem a palavra em chinês. Houve alguém que tinha ouvido falar de judeus que tinham sido mortos e da ‘Lista de Schindler’, mas a maioria não fazia ideia do que foi o Holocausto”, frisa. Timmermans entende que não é viável um estudante de uma universidade analisar o livro “Cães Pretos”, de Ian McEwan – que tem como contextualização o drama judaico das décadas de 1930 e 1940 – sem ter as noções mínimas de História. E foi assim que começou a procurar sensibilizar os seus alunos para o passado europeu.

Embora entenda que “não é assunto difícil de ensinar”, o professor sentiu que precisava de saber mais sobre o ensino do Holocausto. Porque também se interessa particularmente sobre o assunto, decidiu passar um mês em Israel, no Yad Vashem – o Centro do Holocausto – e fazer um curso destinado a professores. “Os meus colegas eram dos Estados Unidos, Inglaterra, Hungria, Roménia, não havia ninguém da Ásia. Ensinar o Holocausto na Ásia não é a mesma coisa que o fazer na Europa.”

Histórias na primeira pessoa

Por estas bandas, a única forma de transformar o Holocausto em assunto relevante para o público chinês é por via da invasão japonesa, que aconteceu na China ao mesmo tempo que milhões de judeus eram presos e mortos na Europa, diz a Timmermans a sua experiência de ensino. Em Nanjing houve um massacre e o paralelo entre as diferentes realidades que redundaram na mesma tragédia funciona em Macau. Já na China, a história é outra.

“Há um ano, fiz parte de um programa de ensino sobre o Holocausto a alunos universitários de Kunming, durante três semanas. Foi bastante chocante, porque muitos dos alunos chineses, no fim do curso, continuavam a dizer ‘ah, mas nós somos diferentes. Ao contrário de vocês, nós odiamos os japoneses, nós odiamos os japoneses’”, relata. “Ou seja, não conseguimos transmitir a nossa ideia – nós não odiamos os alemães, o curso não era acerca do ódio, mas sim sobre a necessidade de encontrarmos as lições do Holocausto – se é que as há, não tenho a certeza.” Acima de tudo, defende Glenn Timmermans, há que saber ensinar o tema de uma forma positiva – algo que tem conseguido fazer em Macau – apesar de continuar a tentar “tornar o assunto importante” para os alunos e escolas do território.

Contextualizações geográficas e históricas à parte, diz o professor, “uma das razões que torna mais fácil ensinar o assunto em Inglaterra ou em Israel é haver programas muito bons e, por enquanto, a possibilidade de convidar sobreviventes do Holocausto a irem às salas de aula”. O contacto com alguém que passou por “aquela” experiência torna tudo mais real para as crianças e adolescentes, porque “podem tocar em alguém, não é apenas uma história”.

Esta abordagem pedagógica levou Timmermans a convidar, no ano passado, o bielorrusso Alex Kurzem para vir a Macau. “Quando soube que ia estar em Hong Kong, pensei imediatamente que seria a primeira oportunidade de fazer algo semelhante ao que acontece na Europa.”

A iniciativa do docente da UMAC não se destina apenas ao seu grupo de alunos. No ano passado, abriu as portas de um pequeno auditório às escolas de Macau e não houve uma cadeira que tivesse ficado por ocupar. Por isso, este ano, o evento está agendado para um espaço com lugar para 700 pessoas. Enviou cartas de convite às diferentes instituições do ensino secundário – chinesas, portuguesa e internacionais – e a reacção foi melhor do que estava à espera, pelo que se adivinha casa cheia.

Ao lado do Centro Cultural da UMAC, a partir do dia 24, há ainda uma exposição sobre o Holocausto para ver. O conjunto de painéis foi organizado pelo Centro do Holocausto da Cidade do Cabo e reúne uma série de fotografias com explicações sobre o que foi o massacre. No local vão estar também dois ecrãs com depoimentos de sobreviventes. “A ideia é as pessoas verem a exposição, lerem as informações que lá estão, sentarem-se e assistirem aos testemunhos.”

Lição de direitos humanos

Glenn Timmermans conheceu Fumiko Ishioka há dois anos e foi assim que ficou a saber do projecto “Inside Hana’s Suitcase”. A investigadora, que se sentia igualmente chocada por o Holocausto ser tema ignorado no Japão – “dada a dificuldade que o país tem em lidar com os crimes de guerra”, contextualiza o docente de Macau – decidiu criar um pequeno grupo para estudar o tema.

“Fumiko sentiu que tinha de encontrar algo que tornasse o Holocausto mais real para as crianças. Pediu ao Museu Auschwitz que lhe enviasse um objecto: uns óculos, qualquer coisa.” Na volta do correio chegou a mala de Hana Brady e o resto da história passa-se em dois continentes diferentes: primeiro na Europa, onde descobriu que a proprietária da mala tinha um irmão que sobreviveu ao campo de concentração; depois no Canadá, onde vive George Brady.

“Através de George conseguiu descobrir toda a história de Hana Brady – quem eram os pais, onde vivia, com que idade foi enviada para o campo de concentração. Conseguiu as respostas para todas as perguntas que eram colocadas pelas crianças com quem trabalhava.”

O interesse de Fumiko Ishioka levou a que George Brady se tivesse dedicado a fazer chegar ao mundo a história da irmã – que acaba por se sobrepor à sua própria experiência de vida. A escritora canadiana Karen Levine escreveu um livro e fez um primeiro documentário sobre a dimensão geográfica do improvável encontro entre uma japonesa e um cidadão canadiano natural da Eslováquia.

A obra está publicada em diversas línguas, incluindo chinês. Para as crianças que se envolveram no projecto de Ishioka, passou a ser mais do que uma história. “Não se trata apenas de um livro. Os miúdos aprenderam sobre o Holocausto através do seu próprio trabalho de pesquisa”, salienta Timmermans. O professor gostaria que as escolas de Macau participassem no projecto, aberto a alunos de todo o mundo. “Espero que a história os inspire, que não vejam apenas o filme, que leiam o livro e vão à procura de mais. Gostaria que os professores das escolas incentivassem os miúdos a fazerem alguns trabalhos.”

Há alguns meses, Glenn Timmermans deu uma aula sobre o Holocausto numa escola secundária de Macau e não esconde que gostaria de repetir a experiência noutras instituições de ensino. Pertencente à pequena comunidade judaica da RAEM, esclarece, porém, que esta sua vontade de transmitir conhecimentos sobre o Holocausto não tem na origem razões de índole religiosa, mas sim aquela que poderá ser a única lição da tragédia: “Há discriminação em qualquer lado, em qualquer altura da História”.

Por isso, defende, “o fundamental do ensino do Holocausto é o ensino dos direitos humanos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948, é uma consequência directa do Holocausto”. Porque a questão dos direitos humanos é sempre sensível na Ásia, Timmermans acredita que algumas escolas locais poderão não se sentir muito confortáveis com a questão, dada a implicação política que o professor tenta contrariar, por se estar perante uma questão que é apenas de educação.

“O Holocausto é uma tragédia para os judeus, mas não é apenas uma história de judeus. Há Darfur, o Camboja, a Coreia do Norte, estas coisas continuam a acontecer.” Deste modo, a importância de trazer filmes e sobreviventes a Macau é, acima de tudo, “a necessidade de falar do perigo do racismo, da discriminação, de olhar para outras pessoas e considerá-las diferentes”.

Glenn Timmermans é crítico na forma como a RAEM lida com a diferença, apesar de fazer dela o seu slogan oficial. “Precisamos de fazer com que o multiculturalismo sejam verdadeiramente aplicado. Vivemos numa cidade onde existe uma enorme discriminação dos filipinos e de pessoas de outras origens. Em Macau, há discriminação, apesar do discurso oficial. E é por isso que gostaria que as crianças crescessem a ter consciência de que as diferenças raciais não são importantes, são insignificantes.” Dentro da mala vazia de Hana apareceu a história de uma miúda judia, mas cabe a Humanidade.

Da morte e da sobrevivência

Hana Brady nasceu a 16 de Maio de 1931 em Nove Mesto. Filha de Karel e Marqueta Brady, era três anos mais nova do que George. À época, a economia da vila eslovaca assentava, em boa parte, nos desportos de Inverno. Recordada como uma criança alegre e cheia de energia, criada numa família sem quaisquer dificuldades financeiras, Hana começou a praticar esqui muito nova. A neve era uma das suas paixões.

A vida mudou drasticamente com a chegada dos Nazis e a imposição de restrições aos judeus. Depois dos pais terem sido detidos em 1941, e de uns meses passados em casa de uns tios, Hana e George foram os dois presos e levados para Terezin, em Maio de 1942. No dia 18, à chegada ao campo de concentração, os dois irmãos foram separados.

Em Terezin, Hana teve a sorte de ter aulas de música e de artes – dadas clandestinamente. Quem se cruzou com ela recorda uma criança que tentava sobreviver com normalidade, não obstante as circunstâncias difíceis. Em Outubro de 1944, foi deportada para Auschwitz. Foi de imediato assassinada.

Nascido em 1928, George Brady partiu para Auschwitz um mês antes da irmã. Em Janeiro de 1945, a um mês de fazer 17 anos, durante uma marcha da morte pela Alemanha, conseguiu fugir. Regressou a Nove Mesto, onde descobriu que os seus pais tinham sido assassinados. Esperou em vão pelo regresso de Hana – pouco tempo depois viria a saber da sua morte.

Único sobrevivente da sua família directa, George decidiu abandonar o país e acabou por se fixar no Canadá, onde reside até hoje.

in Ponto Final

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