A China nas suas diversas versões

São duas formas completamente distintas de escrever sobre a República Popular da China, na altura em que se assinala o 60º aniversário da sua fundação. Quem está fora das fronteiras chinesas coloca em destaque os pontos fracos de um país que, ao longo de seis décadas, em muito se transformou, mas não ainda o suficiente para sair incólume do olhar crítico internacional. De dentro, procura-se transmitir uma imagem de estabilidade, amor à pátria e confiança no futuro. Muita.

Isabel Castro

“As pessoas de Urumqi prepararam muitas celebrações para comemorar o dia Nacional da China a 1 de Outubro.” A frase está em destaque, ilustrada com uma colorida fotografia, no local especial que a Agência Xinhua reservou para o 60º aniversário da República Popular da China no seu site. É uma forma de demonstrar que em Xinjiang, aquela região autónoma que tantas preocupações gera por esse mundo fora, não se passa nada. Ou passa: há festa amanhã.
Como é hábito em efemérides e grandes eventos, a agência noticiosa oficial chinesa preparou uma série de reportagens, notícias e artigos de opinião sobre a data que se assinala esta quinta-feira. E como é regra nestas ocasiões, a Xinhua mostra um país que corresponde a uma parte da realidade: para o serviço em inglês, a agência elege os factos que, em termos internacionais, revelam uma China em franco progresso e – para utilizar uma expressão tão em voga por estas bandas – em que impera a harmonia social. Mas a Xinhua procura ainda demonstrar que a China é um país aberto às críticas e a olhar para o futuro.

Os próximos 60 é que são

Num dos textos do serviço especial da agência noticiosa, intitulado “Os próximos 60 anos para testemunhar uma nova China tradicional”, a Xinhua foi à procura da opinião de peritos e académicos que entendem, todos eles, que durante os próximos 60 anos a China vai tornar-se um país “mais harmonioso e desenvolvido”, e provavelmente a maior economia do mundo.
O autor do artigo cita o escritor de ficção científica Liu Cixin, que escreveu um livro sobre o que será o país em 2069. A China vai definir uma nova identidade, com “a sua própria escala de valores que resulta da introdução de princípios modernos”.
Para Liu, haverá uma combinação entre individualidade e colectividade que permitirá um desenvolvimento sustentado. Estes novos valores, sustenta, vão influenciar a forma de vida da população, a economia, a diplomacia, o desenvolvimento tecnológico e até o mundo.
Os Estados Unidos acreditam que a China ultrapassará o Japão enquanto segunda maior economia mundial em 2025, e a Academia Chinesa das Ciências prevê que o país passe à frente da América em 2050, obtendo assim a primeira posição deste campeonato mundial numérico.
“O desenvolvimento económico fará com que a população chinesa reveja a sua própria cultura: a essência do Confucionismo, incluindo o humanitarismo, a imparcialidade, maneiras, sabedoria e, mais importante, a confiança”, diz Yan Feng, professor da Universidade de Fudan.
Xiong Yuegen, um sociólogo da Universidade de Pequim, espera que a China seja um país “moderno e civilizado” com características tipicamente chinesas em 2069. O especialista acredita que a nova geração deverá ser mais aberta a diferentes culturas, apreciando, em simultâneo, as suas próprias características.

O grande passo para trás

É o título de uma das várias reportagens sobre a evolução da China publicadas ao longo dos últimos dias pelo South China Morning Post. O matutino em língua inglesa de Hong Kong fez trabalhos sobre a matéria, mas abriu espaço a artigos de jornais de outros pontos do mundo.
Nos textos de produção própria, não esconde um certo criticismo na perspectiva que adoptou para os retratos feitos. “Apesar dos esforços para melhorar os rendimentos dos agricultores, as políticas desastrosas de Mao Zedong continuam a ser visíveis”, escreveu o jornal dois dias antes da comemoração do feito que inscreveu o Grande Timoneiro na História.
“Mao Zedong disse que a chave para o sucesso da revolução do Partido Comunista residia no apoio dos agricultores, que ele conquistou prometendo a posse da terra. Mas passados 60 anos, a propriedade continua a ser um dos maiores problemas e os agricultores permanecem sem privilégios.”
Da série de textos sobre os 60 anos da RPC faz ainda parte um conjunto de perfis de pessoas que viveram “seis décadas de mudança, instabilidade política e reforma”. É o caso de Li Tangui, que já viu de tudo nos seus 88 anos de existência, relata o SCMP. A vida do octogenário de Cantão ficou marcada pelos “episódios mais dramáticos e traumatizantes” do Continente.
Nascido em 1921 em Huiyang, Li é um comunista veterano. Em 1938 mudou-se para Hong Kong, em fuga às tropas japonesas, e juntou-se ao Partido Comunista, integrando mais tarde o grupo armado de resistência à invasão nipónica em Guangdong, uma unidade que viria a ser integrada no Exército Popular de Libertação em 1945.
Viu camaradas seus morrer e garante que o dia 1 de Outubro de 1949 em nada se assemelhou a uma festa. “Só as pessoas que não têm experiência de guerra é que podem pensar tal coisa”, desabafou. “A guerra contra o Kuomitang continuou. A minha mulher, enfermeira do exército, estava noutra frente… Não estávamos com disposição de celebrar a ‘nova China'”.
Li lamenta “as violentas campanhas políticas que se seguiram, uma atrás da outra”, e que culminaram com a Revolução Cultural, que durou até à morte de Mao Zedong, em 1975. “Parece que a minha geração só conhecia o caos político”, analisa. “Muitos dos meus amigos sobreviveram à guerra mas morreram nos movimentos que se seguiram.”
O octogenário assegura que só na década de 1980 é que se começou a sentir “feliz e descontraído”. Quanto à China da actualidade, aponta rapidamente um problema: “Sinto-me zangado com a corrupção generalizada e a falta de acção para a combater”.

Sem Deus nem senhor

O South China ouviu também Zhang Yuzhi, uma mulher pertencente à chamada “geração perdida” que ajuda a desmistificação que o jornal procura fazer das celebrações do 1º de Outubro. Zhang era uma jovem aquando da Revolução Cultural – uma adolescente que acreditava que Mao ia mudar o país.
Trocou Pequim por uma quinta na Mongólia Interior, onde passou uns nada fáceis cinco anos e meio. “Não tínhamos noção da realidade, achávamos que podíamos fazer a diferença”, constata, 61 anos completos.
Em 1974 voltou a Pequim. Quando olha para aqueles 10 anos de vida “turbulenta”, diz que a única coisa positiva foi Mao ter mostrado ser falível e ter deixado de olhar para o Grande Timoneiro como um deus. “Mas o preço foi demasiado elevado, uma vez que muitos intelectuais morreram ou foram atirados para a prisão. Havia intelectuais suficientes [para construir uma nova república] na altura? Claro que não.”

E depois de Deng

Zheng Yanping faz parte de outro período da história, mas tem a sua vida marcada por um acontecimento histórico. Aos 18 anos, em 1982, a jovem de Shaoguan, na província de Guangdong, mudou-se para a então nova cidade de Shenzhen – classificada como zona económica especial há três anos – para trabalhar naquela que foi a primeira fábrica com investimento estrangeiro.
No complexo da Kaida encontrou um novo mundo, muito diferente das indústrias estatais que conhecia. O seu salário era quatro vezes superior ao da mãe, numa altura em que se começou a assistir à migração massiva e à urbanização do Delta do Rio das Pérolas – a zona da China que, passados uns anos, adquiriu o estatuto de fábrica do mundo.
Cerca de 300 milhões de pessoas seguiram os passos de Zheng e mudaram-se para as cidades para encontrarem trabalho. Espera-se que, nos próximos 15 anos, outros 300 milhões abandonem as zonas rurais, naquele que será, de longe, o maior fenómeno de urbanização da história da Humanidade. E que acarreta consequências: os filhos que se deixam para trás (o número de crianças nas zonas rurais com pais a viverem nas cidades é um problema assumido pela própria China) e o aprofundamento do desequilíbrio, já hoje dramático, entre urbe e campo.

Mandarins do futuro

Os 60 anos da RPC ficam inevitavelmente marcados pela introdução da política do filho único – uma medida que, ainda ontem, num texto sobre a influência da China no crescimento demográfico mundial, era motivo para um veemente aplauso da Xinhua.
O South China Morning Post escolheu um filho único multimilionário como entrevistado: Li Xiang é o fundador da PCpop.com, uma rede online de venda de computadores e material electrónico.
“Tenho a personalidade típica de uma pessoa que nasceu durante a década de 1980”, explica Li. “O lado bom é que sou activo e optimista, mas também me preocupo em demasia comigo e tenho tendência a não prestar atenção aos sentimentos das outras pessoas. Mas estou a tentar melhorar”, garantiu.
Conhecidos como “pequenos imperadores”, os filhos únicos da China têm fama de serem egoístas, mimados e socialmente inaptos. Dizem os peritos que lhes falta a capacidade revolucionária e o sentimento de pertença à comunidade da geração dos seus pais. Mas são mais competitivos e inovadores.
É com eles que a China conta nos próximos 60 anos. Não contam histórias sobre o período de Mao Zedong nem sobre o que foi o dia da fundação da República Popular da China mas – assegura a Xinhua num texto sobre a efeméride e as novas tecnologias – vivem o Dia Nacional com muito orgulho e patriotismo, expressando os seus sentimentos através de chats da Internet. Que, a propósito, continua a ser, 60 anos depois do feito de Mao, fortemente controlada – um facto que a Xinhua não destaca, mas que o mundo faz questão de recordar por altura das ocasiões festivas, em que os direitos humanos no país voltam a ser tema de análise e preocupação a nível internacional.

in Ponto Final

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