O urso Guilherme ou William, the bear

1. Há já uns anos que o Comissariado contra a Corrupção concebeu um programa de prevenção da corrupção junto dos estabelecimentos de ensino de Macau. O urso Guilherme que enfeita os mais variados objectos da campanha em curso do CCAC, que visa o combate à corrupção eleitoral, não é novidade – faz parte de um estranho imaginário infantil de um organismo de investigação criminal.
Tenho as maiores reservas em relação aos programas de sensibilização sobre a matéria nas escolas do território. Recordo-me de, há já alguns anos, uma professora da Escola Portuguesa de Macau se mostrar extremamente indignada com um cartaz deixado ao abandono numa sala de aula, fruto de uma dessas acções levadas a cabo pelo pessoal alegadamente treinado para ensinar aos mais miúdos que a corrupção é uma coisa feia.
Contava a docente que um aluno desenhou uma criança a oferecer uma maçã a um professor, com um traço por cima e uma mensagem do género “Oferecer prendas aos professores é corrupção”.
Não vale sequer a pena dissertar sobre a inversão de valores que este tipo de acção pode gerar. Mas será útil que se tenha sempre presente que a corrupção – coisa de adultos -, deriva de uma falta de valores que, esses sim, devem ser incutidos, sem recurso a ursos Guilherme.
Não são os patéticos jogos da integridade que evitam que, em adulto, uma criança de agora venda o seu voto daqui a 12 anos. Um miúdo que eventualmente se interesse pelo material “didáctico” do CCAC não tem idade sequer para perceber o que é corrupção. Mas tem já maturidade para distinguir o bom do mau, e o respeito da falta dele. Mais tarde, deverá ter condições para perceber o que é justo e o que não é. Se a dignidade for praticada, os miúdos aprenderão a ser dignos.

2. Pouco digna para gente séria é a campanha de prevenção da corrupção eleitoral lançada pelo CCAC, e que custa aos cofres do Governo a módica quantia de 2,9 milhões de patacas. Um valor aplicado em palestras, conferências, concertos e actividades com nomes difíceis de decorar e reproduzir, mas também dinheiro investido em leques com frases imperceptíveis em português, chapéus de chuva, ventoinhas para pendurar ao pescoço e sim, muitos ursos Guilherme.
Diz o CCAC que a aposta deste ano são os 30 mil jovens eleitores que, pela primeira vez, votam no próximo mês nos seus candidatos de eleição. Será que é por isso que se justifica o milagre da multiplicação dos ursos Guilherme?
É certo que os objectos de pelúcia fazem as maravilhas de muitos automobilistas da cidade e não há serviço público em Macau que não tenha as secretárias e computadores ornamentadas com os mais diversos objectos do imaginário infantil profundo.
Não obstante, é-me difícil perceber como é que um órgão de investigação criminal transforma um urso em super-herói que não vende o voto. Acredito que os eleitores de Macau têm, em termos de idade mental, mais de seis anos. É pena que o CCAC não os trate como adultos que são, com direito ao voto e à decisão livre.

3. E por falar em crianças, e até que novos detalhes sejam conhecidos, causa-me sérias dúvidas a reforma curricular do D. José da Costa Nunes anunciada esta semana pela instituição que gere o jardim de infância. Mas antes que os teóricos da matéria torçam o nariz, fica o esclarecimento: sem sermos académicos, todos nós temos uma relativa noção de que, até à entrada na adolescência, estamos mais predispostos para a aprendizagem de línguas. And so on, and so on.
Por razões que não são chamadas à colação, durante um ano da minha vida em Macau passei duas horas por semana no D. José da Costa Nunes, onde convivi com 30 crianças dos 3 aos 5 anos. Uma imagem que retenho bem viva era a extrema dificuldade que os mais pequenos tinham em falar português, quando comparando com crianças da mesma idade residentes em Portugal.
Não espanta que assim seja. Alguns dos alunos do D. José da Costa Nunes crescem em famílias multiétnicas e multi-linguísticas, aprendendo em simultâneo vários idiomas. Mesmo aqueles cujos pais têm o português como língua materna, passam grande parte dos seus dias em creches onde se fala muito cantonês ou em casa com babysitters filipinas. Ou seja, não passam os seus dias com a língua portuguesa em som de fundo, o que não tem nada de mau, antes pelo contrário. É bom que os miúdos vão aprendendo, ao ritmo das suas necessidades e de acordo com o seu contexto, diferentes idiomas, porque será uma base de aprendizagem importante para quando chegar o dia de aprender uma língua estrangeira “a sério”.

4. E é chegando a este ponto que tenho reservas em relação a este esquema “Mãe vou para a escola” às segundas-feiras, “Mom I’m going to school” às terças. Faz-me confusão esta história de línguas diferentes dia sim, dia não, porque estamos a falar de crianças de três anos, algumas ainda com dois. Há miúdos que andam com a chupeta no bolso da bata.
O jardim de infância deve ser um espaço para as crianças aprenderem, sobretudo, a relacionarem-se com os outros. Onde se devem desenvolver capacidades várias, mas em que tudo deve assentar na ideia de que estamos perante um fase da vida em que aos miúdos deve ser dada, acima de tudo, a possibilidade de serem felizes. Sem pressões nem grandes confusões. Sem quotidianos complicados e muitos afazeres. Sem os exibicionismos que, muitas vezes, são os próprios pais que alimentam e aos quais as escolas cedem. Sem “olha o meu filho que tem quatro anos e que bem que ele canta na festa de Natal”. Jingle bell, é Natal, jingle all the way.
As línguas adicionais devem ser, por isso, ensinadas de uma forma opcional quando estamos a falar de crianças entre os 3 e os 5 anos. Há miúdos acabados de entrar no jardim de infância que acolhem de bom grado tudo o que é diferente. E depois há outros que, perante a perspectiva de terem de largar a bata da educadora de infância, a nova “mãe” com a qual ainda estão a criar um relacionamento, se encolhem de pavor.
Num artigo do jornal Hoje Macau publicado ontem, o académico Ivo Carneiro de Sousa defendia o modelo bilingue que, segundo explicou, é seguido nos Estados Unidos, com o inglês e o espanhol como idiomas de ensino alternados numa lógica semanal. Os resultados “são óptimos”, acrescentava o docente.
Não duvidando, de modo algum, das conclusões dos que fazem do estudo destas matérias a sua vida, detecto uma grande diferença entre os Estados Unidos e Macau que deve estar presente quando se tomam este tipo de decisões. Ao contrário de San Diego, onde tanto o espanhol, como o inglês se ouvem nas ruas e na televisão, em Macau nem o português, nem o inglês são línguas ambiente. Não são os idiomas com os quais os miúdos crescem em continuidade. Talvez seja um factor a ter em consideração.
Mas mais importante ainda é pensar no tipo de ensino que se pretende para estes miúdos tão novos. Se queremos crianças que chegam ao ensino primário cheios de ensinamentos vários ou se, pelo contrário, queremos miúdos para quem a entrada na “escola dos grandes” significa, efectivamente, uma nova fase da vida deles, para a qual o jardim de infância as preparou. Se queremos crianças simplesmente crianças ou miúdos cheios de obrigações e com um espírito de competição resultante da pressão do “I have to know everything e fazer várias coisas ao mesmo tempo”.
Infelizmente, há muitos estabelecimentos de ensino em Macau onde as crianças não chegam a ter tempo para o ser. E depois, é por essas e por outras que, quando já têm idade para votar, são sensibilizados para o valor do voto com ursos de pelúcia de nome Guilherme. O CCAC sabe o que faz.

Isabel Castro, in Ponto Final

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