A retrete do tradutor de Susana Chou

Vá-se lá saber porquê, há uma certa tendência em Macau para se aceitar o fraco português que se vai praticando por estas bandas. Dez anos depois da transferência, existe um clima de condescendência em relação ao que se lê e sobretudo, ao que se ouve. É como se o facto de ainda se usar a língua portuguesa como meio de comunicação resultasse de um acto que temos de agradecer a beneméritos vários. E como cavalo dado que é, não se olha ao dente.
Diz quem cá está há muitos anos que as traduções, escritas e orais, têm vindo a piorar. Quem está cá há menos tempo subscreve a sensação. Como pouco nada há a ser feito, vai-se relativizando o mal, tenta-se perceber o que não chega a ser dito com todas as palavras, descodificam-se intenções e, escusado será dizer, pratica-se a abstinência de análises à retórica e ao discurso político, que as frases inacabadas não o permitem.
Ninguém duvida do quão difícil é o trabalho de um tradutor-intérprete. E ninguém põe em causa a dificuldade das duas línguas utilizadas nesta proeza de nos fazermos entender em Macau: o cantonês não é coisa simples, o português está cheio de gramática.
Não obstante as boas intenções de toda a classe de tradutores-intérpretes de Macau, e sem colocar em causa a qualidade de alguns deles, é evidente que, na generalidade, o serviço que prestam está longe de ser o desejável.
O caso assume contornos graves quando se fala de justiça. Uma visita a uma qualquer sala de audiências em que esteja a decorrer uma sessão com um arguido, uma testemunha, um advogado ou um juiz que só entende português demonstra que não é tarefa fácil perceber o que é dito. Quem observa de fora não pode deixar de se interrogar até que ponto é que os testemunhos que passam pelo crivo da tradução são sujeitos (ou não) a uma relativização – aquele “desconto” que se dá por força da tradução.
Na Assembleia Legislativa a vida de quem só fala uma língua não é mais facilitada. Se há traduções em simultâneo que demonstram queda para o labor e brio na profissão, outras revelam uma extraordinária falta de jeito. Como a do tradutor que, aquando das queixas (em cantonês) da presidente da Assembleia Legislativa sobre o tratamento dado pelo CCAC às suas testemunhas, pôs Susana Chou a dizer (em português), repetidas vezes, a palavra “retrete”. Acredita-se que a presidente gostaria mais de uma simples “casa de banho”.
Mas como ainda se fala em português no órgão legislativo da RAEM, lá se vai imaginando o que os deputados querem realmente dizer. Aqui ao lado – e já que está na moda ir buscar ideias a Hong Kong – encara-se o facto de se falar inglês com normalidade e não com os contornos de excepcionalidade que a língua portuguesa tem em Macau. Já se sabe que existem razões históricas e diferentes estratégias da divulgação dos idiomas que não vale a pena discutir nesta fase do campeonato.
Mas vale a pena pensar no futuro e se Macau quer ter uma presença efectiva e digna da língua portuguesa, pormenor que faz toda a diferença numa cidade que se farta de dizer ao mundo ser ela própria a diferença. Vale a pena perguntar ao Governo e a todas as entidades com responsabilidade na matéria – incluindo as com sede em Lisboa – se a língua portuguesa é uma aposta séria ou um enfeite decorrente de uma obrigação institucional. Até lá, há que continuar a imaginar o que se realmente se diz. Retrete ou casa de banho?

Isabel Castro, in Ponto Final

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