Crónica de um homem de valor

carlos-dassumpcaoA morte bateu cedo à porta daquela que é considerada uma das grandes figuras de Macau do século XX. Em 2009, assinala-se o 80ª aniversário do nascimento de um advogado e político incontornável, mas que a vida acelerada da RAEM acabou por esquecer. O Albergue da Santa Casa da Misericórdia lembra Carlos d’Assumpção através de uma exposição fotobiográfica e do lançamento de um livro sobre o macaense que soube gerar consensos. Celina Veiga de Oliveira fez o trabalho de pesquisa.

Isabel Castro, in Ponto Final

Não foi a primeira vez que lançou mãos à obra em busca de uma das figuras mais marcantes da comunidade macaense do século XX. Três ou quatro anos volvidos da morte de Carlos d’Assumpção, Celina Veiga de Oliveira fez nascer um livro sobre o homem e o político. O volume de então resultou da recolha de textos de vários autores.
Mas desta feita é diferente. Agora, trata-se de uma biografia que permite perceber o percurso de um homem em nada vulgar. A biógrafa não esconde a admiração pelo biografado, com o qual privou durante parte dos seus quase 20 anos de residência em Macau – Veiga de Oliveira deixou o território poucas horas depois de se ter transformado em RAEM.
A historiadora regressa em 2009 com uma missão especial: coordenar uma exposição de fotografias, que será inaugurada já no próximo dia 6, e deixar em Macau um livro para ser publicado em português, chinês e inglês.
Celina Veiga de Oliveira não poupa adjectivos para explicar quem foi Carlos d’Assumpção. Mas na hora de sintetizar as características do advogado e político de vida breve mas longa de importância, a historiadora e editora opta pela substantivação. E pede as palavras emprestadas.
“Os adjectivos são sempre mais falíveis do que os substantivos. Prefiro o título que a filha de Carlos d’Assumpção escolheu para o livro: um homem de valor.”
A biografia a ser publicada pelo Albergue da Santa Casa da Misericórdia começou a ser elaborada em 2004, na sequência de um desafio lançado por uma entidade de Macau que acabou por não se concretizar. No final de 2008, Celina Veiga de Oliveira volta a receber um convite no mesmo sentido, desta feita da instituição liderada pelo arquitecto Carlos Marreiros. “O livro resulta do que já tinha escrito. Fiz uns pequenos ajustes e já está a ser vertido para inglês e chinês”, refere.

Figura terrena

São várias as personalidades de Macau que fascinam a historiadora – Camilo Pessanha e Carlos d’Assumpção não só mereceram o seu encanto, como a sua dedicação enquanto investigadora.
Os oitenta anos que o político celebraria se fosse vivo são pretexto mais do que suficiente para o recordar. Mas a efeméride não seria sequer necessária. “É indubitavelmente a grande figura de Macau dos últimos anos do séc. XX”, defende a biógrafa.
“Era uma pessoa que transmitia um enorme e automático respeito a quem o conhecia.” Foi o caso da própria Celina Veiga de Oliveira, que chegou a Macau em 1980. “Já tinha ouvido falar de Carlos d’Assumpção em Lisboa, mas considerava-o quase intocável.”
Enganou-se, era uma personalidade “absolutamente terrena”. E “muito afável, de uma enorme simplicidade, transmitia serenidade, sempre com um sorriso, muito atento e delicado”. Há ainda a acrescentar o facto de ser uma pessoa “extremamente inteligente e culta”.
O antigo presidente da Assembleia Legislativa de Macau – depois da sua morte, o cargo foi ocupado por Anabela Ritchie – destacou-se, antes de mais, como advogado. A política veio depois, mas conseguiu conciliar as duas actividades que lhe encheram os dias.
“Tinha uma formação jurídica a sério, foi um dos grandes alunos de Direito da Universidade de Coimbra, entre 1946 e 1951. Naquela altura, a academia de Coimbra era muito rigorosa nas notas que dava. Foi o melhor aluno do curso, juntamente com o amigo Almeida Santos”, com quem mais tarde teve uma relação profissional à distância, de Macau para Moçambique.
Carlos d’Assumpção fez o sexto ano jurídico, privilégio que estava reservado para os melhores, aqueles que tinham média de curso superior a 16 valores. O aluno macaense teve 17. “Era uma coisa quase impensável na altura”, destaca Veiga de Oliveira.
O feitio afável que todos lhe reconhecem trouxe-lhe amigos no tempo da capa e batina. A escritora narra episódios de reconhecimento de ex-colegas a quem ajudava com explicações sobre as matérias mais difíceis. “Era uma pessoa pela qual se sentia respeito, admiração e amizade. As pessoas gostavam naturalmente dele.”

Processos guardados

O brilhante aluno macaense foi convidado para ficar a leccionar em Coimbra. Mas a opção foi o regresso a casa, onde se destacou logo como causídico. “Em Macau, notabilizou-se muito cedo.” Além de conhecimentos sólidos de Direito, tinha a seu favor a inteligência, realça Celina Veiga de Oliveira.
Os conhecimentos, o método e o empenho fizeram de Carlos d’Assumpção “um grande advogado”. Esta avaliação resulta daquilo que sempre se disse do causídico – e neste lote de opiniões entra a do antigo colega Almeida Santos, ex-presidente da Assembleia da República Portuguesa.
A historiadora gostaria de fazer um levantamento dos processos em que o advogado interveio. Mas é cedo, explica. “Ainda não podem ser arejados para a opinião pública, temos de esperar mais algum tempo” para fazer um trabalho semelhante ao que levou a cabo com os processos jurídicos de Camilo Pessanha.
Diz-se na cidade que Carlos d’Assumpção fazia pro bono. Mito ou verdade? “É absolutamente verdade. Aos portugueses – em que incluía os macaenses – nunca levou um tostão pelo seu apoio jurídico.”
Celina Veiga de Oliveira aproveita o ensejo para salientar que o advogado “tinha uma ética”. “Acho mais importante a ética do que a ideologia”, defende. “Podemos gostar de pessoas com um leque de ideologias muito alargado, mas normalmente respeitamos pessoas com ética. Era de facto uma pessoa vertical com uma ética que, olhe, já nem se usa!”

Político dos dois tempos

Carlos d’Assumpção era um advogado respeitado pela classe. Mas foi também um político considerado, mesmo em alturas polémicas. A sua actividade política decorreu em duas fases completamente distintas da vida do território: antes e depois da revolução de 25 de Abril de 1974.
A co-existência destas duas fases leva a uma clarificação prévia de Celina Veiga de Oliveira. “O facto de ter sido uma pessoa que trabalhou politicamente antes do 25 de Abril, nas hostes da União Nacional, faz com que algumas pessoas julguem que não terá partilhado outros valores.” Mas não, assegura. A formação académica, a escola humanista e o seu feitio fizeram com que fosse “um conservador à maneira britânica”.
A prova de que foi um homem de valores constantes é o 25 de Abril, demonstra a historiadora. “Inseriu-se automaticamente na democracia e foi exactamente no segundo período da vida política dele, o da democracia, que teve uma maior intervenção. Fez mais amigos, aliados e, claro está, adversários”, constata.
Até à Revolução dos Cravos, Carlos d’Assumpção ocupa o cargo de maior destaque dentro da comunidade macaense. A mudança de regime na então metrópole altera as regras do jogo a Oriente e assim surge a necessidade de criar a ADIM – a Associação de Defesa dos Interesses de Macau – que se alia à distância ao português CDS. Mais à esquerda, com o apoio do Partido Socialista, Jorge Neto Valente lidera o CDM – Centro Democrático de Macau.
Num eleitorado de dimensões reduzidas, Carlos d’Assumpção garante a sua posição na Assembleia Legislativa. Mas a chegada do governador Almeida e Costa implica uma situação de grande desconforto entre a comunidade macaense. Assistem-se a finca-pés políticos invulgares e a Assembleia é dissolvida. Realizam-se novas eleições e o advogado macaense volta a ganhar, desta vez com uma aliança forte na comunidade chinesa.
Sobre Almeida e Costa, Celina Veiga de Oliveira explica que o que está documentado nos jornais da época permite falar “com alguma tranquilidade” para se chegar à conclusão que foi “o governador imperfeito”, precisamente no que toca à dialéctica política entre Assembleia e Governo.
“Se tivesse tido um outro tipo de actuação em relação à Assembleia, cujo presidente era Carlos d’Assumpção, e em relação à comunidade portuguesa e macaense da altura, podia ter ficado na história como um grande governador, porque fez coisas boas, por exemplo, ao nível das infra-estruturas.”

Da serenidade e da força

Tido como um “homem de diálogo e de consenso, de voz calma e profunda, com um ascendente enorme” sobre quem o rodeava, o advogado e político conheceu momentos em que teve de demonstrar a sua capacidade de afirmação. Se a estratégia de Almeida e Costa em relação ao órgão legislativo foi um desses episódios, outros houve, e ainda antes da chegada do governador “imperfeito”.
O “incidente” 1-2-3, em Dezembro de 1966, ameaçou seriamente a administração portuguesa do território. O acontecimento implicou negociações entre os dois lados da fronteira, e Carlos d’Assumpção participou nelas, tal como Ho Yin, a grande figura de então da comunidade chinesa, pai do actual Chefe do Executivo.
O advogado macaense não ficou até ao fim do processo. “Resolveu sair do grupo de personalidades. Foi uma forma de dizer que não concordava com a situação, mas ele próprio dizia que não poderia ter sido de outra maneira.” É este o momento em que “a situação política de Macau sofre uma viragem grande, sentiu-se que era irreversível a mudança do estatuto político de Macau.”

O insubstituível

Um homem com força mas suave, carismático e fascinante, que o tempo não conseguiu substituir. “Foi um homem que deixou um vazio em Macau. Se fosse vivo, teria 80 anos. A natureza recompensou-o muito com a inteligência raríssima, a bondade, a mestria, escrevia primorosamente, e era tão modesto. Dizia ‘Não tenho escrita fácil’. Era um perfeccionista”, recorda a biógrafa, que só encontra no seu biografado um defeito – o facto de não ter deixado de fumar quando ainda ia a tempo.
Para Celina Veiga de Oliveira, Carlos d’Assumpção “não faz falta só à comunidade macaense e às outras comunidades lusófonas, faz falta a Macau, porque seria uma espécie de figura tutelar”.
Diz ainda a admiradora confessa que o político nunca se punha em bicos de pés. “Não precisava, era alto. E era alto em tudo, na estatura e na inteligência invulgar. Morreu demasiadamente novo – tinha acabado de fazer 63 anos. Já morreu há 17 anos. A própria RAEM poderia ter tido oportunidade de usufruir dos seus conselhos e da sua opinião.”
No livro sobre esta “pessoa simples, de muita urbanidade”, Celina Veiga de Oliveira tentou esconder as emoções. “A objectividade em História é impossível, mas pode haver uma preocupação com a objectividade, e eu tive uma grande preocupação ao escrever o livro”, garante, explicando que sustentou o seu trabalho indo ao encontro dos documentos que conseguiu encontrar.
Até 1999, houve uma preocupação em deixar feita a História do território, que se perdeu com o rebuliço e as opções políticas dos últimos dez anos. A autora explica que este seu projecto se insere num mais amplo, dedicado às comunidades – uma vertente que o Albergue quer desenvolver, não só com a organização de exposições como a da próxima semana, mas também através das publicações.
Para esta primeira obra da chancela do espaço da Santa Casa, Celina Veiga de Oliveira teve a tarefa facilitada, no que toca a fontes. “Consultei muito o espólio da família”, que guarda documentação vária sobre o político. Depois, o recurso aos jornais da época. “Não foi nada difícil.”
Do trabalho de pesquisa ficou, porém, uma sensação estranha em relação à cobertura jornalística que a então recém-nascida TDM deu, a dada altura (o período de Almeida e Costa), a um dos políticos incontornáveis da época.
“Há um período da sua vida em que parece que havia uma indicação para que Carlos d’Assumpção nunca aparecesse. Todos os dias havia cerimónias, Carlos d’Assumpção nunca aparecia, não há tantas entrevistas como era suposto haver, dada a sua importância”, diz a biógrafa, ressalvando contudo que se trata de uma “leitura” sua.
As imagens de Carlos d’Assumpção, figura que a comunidade macaense não quer esquecer, estão expostas a partir das 18h30 do dia 6 de Maio no Albergue de Santa Casa da Misericórdia, ao Bairro de São Lázaro. Segue-se uma palestra feita por Celina Veiga Jardim. A entrada é livre. A mostra poderá ser vista até 7 de Junho.

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