Uma cidade com pudor em demasia

Caso das mortes no Tamagnini Barbosa desperta preocupações sobre problemas sociais


São dilemas financeiros à mistura com tabus culturais que em nada ajudam à resolução de problemas de ordem psicológica. O caso da mulher que pôs termo à vida, levando com ela a filha adolescente, está a fazer com que se preste atenção à forma como se vive em Macau: sem espaço, de costas voltadas, sem redes sociais de entreajuda. Os especialistas defendem que o Governo pode e deve fazer mais.

A notícia chocou e ainda não desapareceu das páginas dos jornais. O Ou Mun publicou ontem uma série de artigos sobre o caso do Tamagnini Barbosa, relatando o rescaldo da tragédia que resultou na morte de uma mulher de 39 anos e da filha de 13.
O matutino foi à escola onde estudava a mais nova das vítimas, acompanhou o luto dos adolescentes amigos da jovem, relatou o trabalho feito pelos técnicos do Instituto de Acção Social junto da turma. Fotografou coroas de flores, descreveu o perfil da rapariga e interrogou-se sobre o que leva uma mãe a pôr termo à vida e a levar a filha com ela.
O caso adquiriu esta dimensão pelos contornos trágicos e pelas suspeitas de que o acto terá sido cometido devido a dívidas de jogo. Muitos outros gestos de desespero em Macau são cometidos pelas mesmas razões – explica quem lida com este tipo de realidade social -, mas passam despercebidos. Afinal, no Bairro Tamagnini Barbosa morreu também uma adolescente. E da tragédia faz ainda parte um rapaz de 14 anos, o primeiro a saber que a mãe e a irmã tinham morrido.
Pelas descrições que têm sido feitas, a história desta família caída em desgraça combina dimensões múltiplas que são cada vez mais preocupantes em Macau: dependência do jogo, problemas financeiros, famílias monoparentais e solidão. Para os assistentes sociais, há que agir com urgência, criar redes sociais e estudar novas formas de aproximação às famílias problemáticas, sofram elas de dilemas como a dependência do jogo, a droga ou a solidão.
Aos jovens chega-se com mais facilidade, através das escolas. Mas as famílias fecham-se em copas, pois é feio contar a vida privada a estranhos. O resultado deste pudor resulta frequentes vezes em desespero, que assume formas diversas.

Muito jogo, pouca ajuda

Para Larry So, docente do Instituto Politécnico de Macau que forma futuros assistentes sociais, o caso do Tamagnini Barbosa deve ser analisado com cuidado. “Não temos informações suficientes sobre o perfil e hábitos da mãe.” Porém, o académico entende que é revelador de problemas que não são exclusivos desta família.
“Pelo que lemos nos jornais, sabemos que esta mãe era uma jogadora compulsiva. Quando alguém tem uma grande dependência do jogo, não é difícil ter dívidas, o mais comum é ter problemas financeiros.”
So considera que há muito trabalho a fazer na área da prevenção do jogo e no acompanhamento de quem não é capaz de largar o vício. O assistente social começa por criticar a forma como funciona o centro governamental de aconselhamento para problemas do jogo, a Casa de Vontade Firme.
“Só está aberto no horário de expediente da Função Pública”, nota. “Este tipo de coisas não acontecem só das 9h às 5h”, critica. Assumir que se tem um problema deste género é diferente do que ir ao banco ou às Finanças. O centro tem uma linha aberta para jogadores desesperados mas, ainda assim, “não está a ser prestado um serviço à comunidade”.
Rebecca Kuok Sok-i também é assistente social e fez recentemente um documentário sobre os problemas do jogo em Macau. Descobriu que, associados à patologia, estão inúmeros actos de desespero, do suicídio à violência doméstica, passado pela auto-segregação.
“O jogo está muito próximo da comunidade”, analisa. “Não é difícil começar por fazer umas apostas, gasta-se pouco dinheiro, e facilmente se passa à dependência.”
Rebecca Kuok vinca que, ao nível da sociedade civil, são poucas as instituições que trabalham nesta área, atendendo à dimensão do problema. Que deixou de ser exclusivo de homens – o perfil do jogador compulsivo está a mudar.
“A maioria das pessoas pensa que só há homens entre os jogadores compulsivos, mas o número de mulheres tem vindo a aumentar. Por regra, começam pelas slot machine ou com apostas em jogos de futebol”, explica.
Não é simples para os assistentes sociais chegarem aos jogadores compulsivos. “Não procuram ajuda, têm medo e têm vergonha”, diz. “A abordagem é complicada. O Governo deve avançar com algumas políticas neste sentido.”

Ter vergonha de contar

Também Larry So coloca a vergonha como um dos principais obstáculos a ultrapassar para se criar um ambiente social mais saudável em Macau, cidade que foi perdendo, nos últimos anos, as tradicionais redes de relacionamento social.
As famílias monoparentais – como é o caso do agregado familiar do Tamagnini Barbosa – enfrentam dificuldades acrescidas numa cidade em que há muita solidão.
“Era uma mãe que criava os filhos sozinha. Ser uma mulher divorciada é um problema”, explica Larry So. “Há uma espécie de discriminação, as pessoas discriminam as mulheres que, por opção ou não, ficaram sozinhas a criar os filhos. Esta mulher vivia longe dos seus familiares, não tinha muitos amigos por perto. Não tinha com quem falar.” Não há nada pior, diz o assistente social, do que viver as amarguras sozinho.
Gertina van Schalkwyk, psicóloga e docente na Universidade de Macau, explica que a prevenção do suicídio “é extremamente difícil, principalmente porque as pessoas que colocam essa possibilidade não procuram ajuda”. Há duas razões para que isso aconteça, identifica: não percebem que se trata de uma hipótese “restrita ou irracional”, ou temem a estigmatização associada a quem procura ajuda.
A melhor forma de prevenir o suicídio, disse a psicóloga ao PONTO FINAL, é o sentimento de pertença a um grupo e a noção de identificação com outras pessoas. “Há uma correlação entre a falta de esperança e a tentativa de suicídio nos adultos. Nestes casos, é comum haver uma desagregação social, que acontece quando não há laços sociais fortes.”
Estes factores psico-sociais podem levar a um estado mental em que a morte é encarada como sendo a única saída. Por vezes, combinam-se com factores psicológicos. Noutros casos, as crises interiores – motivadas pelas mais variadas razões -, bastam para desencadear o processo.
“Na cultura chinesa, onde a ‘face’ é importante, os membros de uma família que se encontram em situações de grande pressão psicológica podem desenvolver profundos sentimentos de culpa que os podem levar a encarar o suicídio como a única forma de fuga, para não envergonharem a família”, aponta.
Gertina van Schalkwyk acrescenta que na maioria das sociedades asiáticas o suicídio é visto como uma forma de lidar com “a desgraça potencial ou iminente de um indivíduo ou de um grupo”. Uma tragédia solitária para evitar um outro tipo de desgraça.

O Governo faz pouco

“Na cultura chinesa, não partilhamos os problemas familiares com outras pessoas. A vergonha faz com que não se peça ajuda”, corrobora Rebecca Kuok Sok-i.
Neste contexto, defende a assistente social e realizadora, tanto as associações como o Governo devem fazer um esforço adicional para chegarem junto dos agregados familiares problemáticos.
Larry So defende que Executivo “deve prestar mais atenção, dar um maior apoio para que seja possível fazer serviço de aconselhamento na comunidade”. Há falta de estudos e de planos, denuncia. “Não conhecemos o número exacto dos suicídios em Macau. O Governo não está a fazer o suficiente. Não se fala disso porque é um assunto pouco agradável.”
A análise de Gertina van Schalkwyk não se afasta desta lógica. “A prevenção ou a intervenção é muito complexa e difícil. Muitas vezes, as instituições governamentais não têm recursos e pode acontecer não terem pessoas suficientemente preparadas para lidar com a questão”, constata.
Porque o mais importante de tudo é que as pessoas em desespero consigam pedir ajuda, a psicóloga propõe que o Governo invista na educação da população, no sentido desta encarar o apoio psicológico e diminuir a estigmatização associada ao pedido de ajuda para ultrapassar dificuldades emocionais e pessoais.
Em muitas sociedades, contextualiza van Schalkwyk, entende-se que a melhor forma de prevenir o suicídio é não falar dele. “O Executivo pode investir mais na disponibilização de serviços especializados para a prevenção. Isto exige técnicos que são especificamente treinados para analisar o grau de intenção associado ao comportamento suicida e que possam intervir em caso de crise.”
A psicóloga sugere também que a comunidade seja educada no sentido de reconhecer “os sinais”, algo que ajudará em simultâneo a valorizar o facto de se estar vivo.

Os vizinhos e os amigos

Larry So fala da necessidade de criar redes sociais para substituir as que desapareceram. “As pessoas com histórias e situações de vida semelhantes devem ser colocadas em contacto umas com as outras, criando-se redes de entreajuda”, defende.
Gertina van Schalkwyk é da mesma opinião. “O reforço dos laços sociais e da coerência de grupo parecem ser o mecanismo mais importante para lidar com a sensação de desespero que pode levar ao suicídio.” E a forma mais eficaz de, em caso de haver esse tal desespero, ser feita uma intervenção atempada.
Pessoas com propensão para esta solução devem ter um acompanhamento pessoal muito próximo. “Manter o contacto, ajudar a pessoa a perceber que o seu estado não permite analisar a situação com clareza, explicar que há outras possibilidades, fazer ver que o tormento emocional não vai durar para sempre, tudo isto é importante no processo de intervenção.” E, claro está, a compreensão e o apoio emocional das famílias e dos amigos são muito importantes, realça.
O modo como a cidade se organiza, do ponto de vista urbano, influencia em muito a forma como a sua população se sente e o tipo de relações sociais. A académica da Universidade de Macau diz que houve uma deterioração no espaço da cidade nos últimos cinco anos, tanto dentro de portas como fora delas.
Van Schalkwyk cita uma investigação em que esteve envolvida para explicar que, em 2006/07, Macau era uma das cidades com maior densidade populacional não só da Ásia como do mundo, com uma média de apenas 58 m2 por pessoa, incluindo zonas verdes e espaços públicos.
O aumento do preço da habitação nos últimos anos fez com que as pessoas sentissem dificuldades financeiras e optassem por apartamentos de menores dimensões. Por outro lado, a construção de grandes empreendimentos teve como consequência a diminuição gradual do espaço comum.
“Os espaços públicos estão frequentemente cheios de turistas que, infelizmente, nem sempre demonstram compaixão pelos residentes locais”, observa a psicóloga.
Apesar da grande proximidade que existe entre as pessoas, “com muitos residentes a viverem em enormes complexos residenciais, os vizinhos não se conhecem e até evitam o contacto em busca de alguma privacidade dentro dos seus apartamentos”.
Foge-se da rua cheia de gente para se encontrar sossego em casa, mas esta atitude leva a que as pessoas se sintam “mais isoladas, mais sós, e percam o sentimento de pertença” à cidade onde vivem.
O fenómeno é comum a cidades com grande densidade populacional. Macau continua a ser a terra pequena mas onde os hábitos sociais se perderam com a rapidez da mudança.
Acabaram-se os bairros, as conversas entre vizinhos, trancaram-se as portas mas os dilemas, mais cedo ou mais tarde, tornam-se visíveis. “Se houver canais para desabafar os problemas, não se optará por soluções desesperadas”, aconselha Larry So. Procurar o outro é uma forma de vencer o pudor, diz, para minimizar a solidão.

Isabel Castro, in Ponto Final

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