Concerto para berbequim e ehru

Catarina Terra e Tomé Quadros apresentam amanhã o documentário “Macau, Music Box”

Que música esconde a cidade escondida pelas gruas? Há uma musicalidade própria nesta urbe? As perguntas foram lançadas por uma dupla de realizadores portugueses. As respostas são dadas amanhã, em forma de filme. Mas “Macau, Music Box” é também – ou sobretudo – um documentário sobre o entendimento.

Foto: BLOOMLAND
Foto: BLOOMLAND

Isto de se dizer que a falar é que a gente se entende não se aplica em todas as situações. Quem vive em Macau sabe bem o que quer isto dizer. Mas esta dificuldade de expressão numa língua comum não é sinónimo de afastamento. Nem de falta de entendimento.
Esta foi uma das conclusões a que chegaram Catarina Cortesão Terra e Tomé Saldanha Quadros, os autores de “Macau, Music Box”. O documentário é projectado amanhã, pelas 14h30, no Centro Cultural de Macau, e resulta de um repto lançado pela entidade a jovens realizadores.
O filme da dupla portuguesa está integrado no projecto “Macau – O Poder do Documentário” e foi um dos trabalhos seleccionados na categoria aberta. Esta aposta do júri do CCM nas capacidades criativas de Catarina Cortesão Terra e Tomé Saldanha Quadros fez com que pudessem sair à rua de câmara na mão para explorarem um universo que foge à leitura imediata que se faz da cidade.
“Foi importante porque um documentário é sempre um desafio à realidade. Uma coisa é termos a percepção de que Macau é multicultural e tem um património intangível fenomenal – aquele património que faz parte da memória, da identidade, da cultura de Macau. Outra coisa é viver essa percepção por dentro”, começou por explicar ao PONTO FINAL Catarina Cortesão Terra.
Em “Macau, Music Box” apostou-se numa ideia simples, que resultou numa complexa teia de relações e interacções: retratar a cidade através da sua natureza musical. “Tentámos abordar e conhecer diversas comunidades. Acabámos por ter de privilegiar umas em detrimento de outras, porque só tínhamos 50 minutos. Fizemos uma escolha.”
As opções aconteceram tendo como objectivo a criação de uma “experiência sensorial”. “As pessoas que vão ver o documentário vão deparar-se com a memória musical e sonora que transportamos de uns sítios para os outros”, continua a realizadora. “Lisboa tem uma memória sonora, Paris tem uma memória sonora, e Macau também tem”, assegura.

A via do entendimento

Que sonoridade é esta que só Macau tem? Que musicalidade se associa a Macau? “Tem muitas especificidades”, declara Catarina Cortesão Terra. Tantas quantas as comunidades que aqui vivem. Ou até mais.
“A comunidade portuguesa não é homogénea, a comunidade filipina não é homogénea. Vem de diversas partes e tem patrimónios musicais distintos.” Esta “descoberta da diversidade dentro da homogeneidade de cada comunidade” foi um dos aspectos interessantes da realização do documentário. “Parecia um caleidoscópio. Andávamos à procura de algo e acabámos por descobrir mais.”
A diversidade de expressões “foi importante para termos uma percepção real de como é que as pessoas musicalmente se relacionam dentro de cada comunidade e entre as várias comunidades”, acrescenta.
É da convivência de formas de estar diferentes que resulta a musicalidade única de Macau – aquela que não se pode escrever nas páginas de um jornal, mas que se sente nas ruas e recantos da cidade. “Mas não é homogénea, porque a própria geografia humana não o é”, alerta Catarina Cortesão Terra.
“Macau é uma terra em que vivem comunidades completamente distintas em estreita proximidade. Isso cria registos sonoros distintos mas, entre as diversas comunidades, já houve influências.”
É neste ponto que entra em acção o entendimento, a transversalidade da música. “Claro está que há sonoridades que podem ser muito diferentes e até quase incompreensíveis. A ópera chinesa pode ser de difícil apreensão, a revista portuguesa e até o fado”, ressalva. No entanto, “a música é um comportamento humano que ajuda à aproximação de comunidades distintas”.
A razão de existir desta “via da comunicabilidade” é simples. “Embora a música seja sinónimo de uma identidade e de uma cultura, é algo que, pela sua natureza sensorial, emocional, dramática e criativa, desperta a curiosidade e facilita o modo como as comunidades se observam umas às outras”, afirma a realizadora.

O som da cidade

Em Macau o céu nunca é escuro e o silêncio nunca se ouve. Mas para quem anda à procura de sons, o burburinho constante da cidade é um dado a registar.
“Até mesmo no sítio mais paradisíaco e calmo da cidade, lá bem ao fundo, há o som de uma broca”, diz Catarina Terra com uma gargalhada. A crise acalmou a sonoridade da cidade – “percebemos isso durante as filmagens” – mas nem os jardins escapam ao berbequim.
“Há um barulho urbano intenso. A comunidade chinesa vive muito ligada ao jardim, é lá que estão os cantores de ópera, as mulheres a dançar. As manifestações mais bonitas surgem nesses ambientes.”
O som da cidade pode ser um obstáculo à pureza da música da cidade ou um complemento. “É um barulho muito especial. Há o barulho dos mercados, dos homens a empurrar carrinhos de mão cheios de cartão. E o som dos alunos nas escolas a repetirem o que as professoras dizem.”
A urbanidade de Macau faz com que tenha sons diferentes dos das outras cidades. E que o fim do dia – “filmámos muito à noite” – seja o momento ideal para descobrir a tal musicalidade especial que as páginas de um jornal não têm, mas que os realizadores prometem evidenciar em “Macau, Music Box”.

O desafio ao registo

A música como tema para este documentário resultou de uma sensibilidade comum aos dois realizadores que, por enquanto, estão ainda a fazer “vídeo ou telecinema”.
“O cinema, enquanto linguagem, contempla uma série de vertentes, desde a literatura à encenação dramática, passando pela escultura e a pintura. É a sétima arte. A música é um elemento determinante”, refere Catarina Cortesão Terra.
A associação do assunto “música” ao universo “Macau” tem a ver com a vontade de registar em filme uma realidade que ainda não estava contemplada por este meio.
“Tivemos uma grande dificuldade”, explica, acrescentando que foi preciso algum trabalho de “antropologia” em todas as investigações, estudos e pesquisas. O trabalho feito por Oswaldo Veiga Jardim foi uma ajuda preciosa, mas não bastou, uma vez que o maestro tem a música erudita como área principal de intervenção.
Catarina Cortesão Terra espera que aqueles que forem ver o documentário se sintam motivados para “tirar da despensa as imagens e blocos de notas com coisas que foram registando e descobrindo”. “Gostávamos de estimular a prática do registo, para que as pessoas não deixem em casa os seus conhecimentos.”
Quanto a esta dupla de realizadores, pretende continuar a transformar em filme a vivência da cidade. O próximo projecto já está a andar e será sobre “o corpo em Macau”.

Isabel Castro, in Ponto Final

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