Aprender lá fora o que faz falta cá dentro

Grupo de arquitectos e designers de Macau a caminho de Milão

É uma viagem que vai além de uma simples participação num congresso. Quinze arquitectos e designers de Macau vão estar na próxima semana em Itália, para a terceira edição do ACE, um congresso em que arquitectura, cultura e ambiente se encontram. O conceito nasceu na RAEM, Milão gostou e importou a ideia.

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Há ideias que, por uma razão ou outra, não se chegam a concretizar e que acabam por ser reconvertidas. É o caso do ACE, o congresso sobre arquitectura, cultura e ambiente, que se realiza para a semana em Milão e que nasceu em Macau, resultado de “quase um sonho” a três que ainda não se cumpriu na totalidade.
Pouco depois da mudança de milénio, os arquitectos Carlos Marreiros e Marco Imperadori, e José Luís Sales Marques, presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau (IEEM), imaginaram que seria possível criar um mestrado em arquitectura que combinasse estas diferentes áreas de intervenção.
“São três grandes questões que hoje em dia preocupam as cidades e os seus habitantes: como combinar de uma forma sustentável o desenvolvimento urbano, a boa arquitectura e o ambiente, no sentido não só da sua protecção, mas também da utilização mais racional dos recursos, de maneiras de construir de forma a que as cidades sejam efectivamente sustentáveis”, explica Sales Marques.
O projecto de mestrado (ainda) não passou do papel à realidade, mas a ideia ficou e transformou-se num curso, “um seminário intensivo de pós-graduação que temos vindo a oferecer desde 2007”, com a colaboração do Politecnico di Mllano, onde o arquitecto Marco Imperadori é docente e reitor para as Relações Internacionais.
Como até 2007 não foi possível tornar realidade o mestrado proposto, “entendemos que devíamos avançar com esta experiência para testar”, acrescenta Carlos Marreiros. As duas primeiras edições demonstraram que a ideia tem “pernas para andar”, entendem os seus mentores.
“Os nossos colegas de Milão gostaram da ideia e importaram o conceito para Milão. É motivo de muita satisfação, enquanto pessoas de Macau, ver uma ideia que nasceu aqui ser importada”, referiu Sales Marques ao PONTO FINAL, salientando que não se trata de uma “ideia tradicionalista, pois foca aquilo que são as preocupações mais prementes no que diz respeito à gestão das cidades e ao desenvolvimento urbano”.

Ver o mundo

O Politecnico di Milano decidiu organizar o ACE de 2009 e chamou Macau para a co-organização. Sales Marques e Carlos Marreiros farão ainda intervenções durante os dois dias do seminário.
O presidente do IEEM vai falar da questão da identidade em ambientes urbanos complexos, dando o exemplo de Macau enquanto cidade dividida entre a história e o futuro. Já o arquitecto e responsável pelo Albergue da Santa Casa da Misericórdia fará a sua intervenção num painel em que se vão debater os edifícios verdes e a arquitectura sustentável.
Mas o mais importante, destacam os co-organizadores, foram as portas que se abriram a uma delegação de Macau. O grupo de arquitectos e designers da RAEM “vai poder tirar partido não só do programa em si, que tem a marca de qualidade do Politecnico de Milano – cuja escola de arquitectura é uma das mais prestigiadas da Europa -, mas terá também oportunidade de estar naquele ambiente muito único que nos oferece Milão, os seus arredores e a Itália em geral, não só pela sua história e património mas também pela sua modernidade e qualidade do design”, salienta Sales Marques.
Carlos Marreiros conta que apareceram quase 30 interessados em participar no congresso marcado para os dias 7 e 8 do próximo mês em Villa Montarero, em Varenna. A selecção “dolorosa” dos quinze elementos da delegação teve como critério a participação nas edições de 2007 e 2008 do ACE, sendo que se teve ainda em consideração o laço que têm com a cidade. “Apostámos em pessoas que podem efectivamente dar a Macau os seus conhecimentos, naqueles que cá estão e pretendem ficar”.
Deste grupo, 13 são arquitectos, quer do sector público quer do privado, e os restantes dois são designers. “Embora este curso seja fundamentalmente para arquitectos urbanistas, gestores do património, ambientalistas e engenheiros, achamos que é uma oportunidade para os designers terem contacto com arquitectos e projectistas, porque temos trabalhos em conjunto”, fundamenta Marreiros. É que nestas coisas de cidades sustentáveis, “é tudo cada vez mais interdisciplinar”.
A par do seminário, os participantes de Macau vão poder ter contacto com “exemplos do património mundial, património restaurado, as novas técnicas do restauro”, estando ainda programas visitas a “alguns salões e museus relacionados com o design”.
O Instituto de Estudos Europeus e o Albergue da Santa Casa da Misericórdia (que pela primeira vez participa no projecto) financiam em mais de 80 por cento os custos da deslocação dos participantes do ACE, que tem nível de pós-graduação. A Fundação Macau deu uma “ajuda importante” e outras instituições de Macau também apoiam, entre elas o Centro de Indústrias Criativas. A partida está agendada para o próximo sábado.

“Urgência” no ensino

O ACE nasceu como forma de colmatar uma falha na renovação de conhecimentos de pessoas que trabalham com arquitectura e urbanismo, mas tanto Carlos Marreiros como Sales Marques têm ainda a esperança de que, a par deste seminário anual, Macau veja nascer um programa de índole diferente: um mestrado.
O projecto desenhado pelos dois macaenses com a ajuda do Politecnico di Milano pretendia incluir não só os docentes da universidade italiana como outros oriundos de diferentes pontos da Ásia: Xangai, Pequim, Tóquio, Índia, Hong Kong e Malásia.
“Fazia todo o sentido uma entidade com uma escola de arquitectura e engenharia de grande qualidade poder participar nessa pós-graduação aqui em Macau, a par de outras contribuições de universidades mais próximas”, defende Carlos Marreiros, frisando que foi no Poltecnico di Milano que se formaram grandes nomes da arquitectura internacional como Geo Ponti, autor da torre Pirelli, e Renzo Piano, que concebeu o Centro Pompidou em Paris.
“Pode ser que qualquer dia, conjuntamente com as universidades locais, consigamos fazer este mestrado”, aponta o arquitecto. Quanto ao seminário que Milão decidiu organizar conjuntamente com a RAEM, Marreiros espera que possa ser “um contributo para que as instituições de Macau levem mais a sério a necessidade absoluta de uma escola de arquitectura”.
Há “urgência” na formação de especialistas nesta área, vinca o arquitecto. Um mestrado como o idealizado por Marreiros, Sales Marques e Imperadori iria permitir “renovar conhecimentos e também preparar uma plêiade, tendo em vista uma licenciatura, já com gente local apta, formada e actualizada para integrar o corpo docente”.

Isabel Castro, in Ponto Final

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