O Haiti não é aqui

Mariana Palavra de saída da TDM para rádio de uma missão de paz das Nações Unidas

Durante os últimos seis anos, foi presença assídua em casa de quem vê o canal de televisão em língua portuguesa da TDM. Mariana Palavra está de malas feitas e parte em breve para o Haiti, onde vai trabalhar na rádio das Nações Unidas. Ao PONTO FINAL, a jornalista fala da importância da comunicação na luta contra a pobreza e nas razões pelas quais Macau será sempre “a casa”.

"Há um papel muito mais vasto a desempenhar do que o do direito à informação. Os media podem ser actores na redução da pobreza."
“Há um papel muito mais vasto a desempenhar do que o do direito à informação. Os media podem ser actores na redução da pobreza.”

Há decisões que se tomam apenas porque sim, porque o caminho pode ser por ali, porque há vontade de descobrir novos mundos e de largar o que já está confortavelmente instituído. Foi assim em 2002, ano em que decidiu vir para Macau; é assim agora, decidida a mudança para outro continente e uma nova realidade.
Mariana Palavra, um dos rostos que marca a TDM da actualidade, parte no próximo fim-de-semana para o Haiti. Pelo meio, três aeroportos e meio mundo de avião. Para trás ficam seis anos de vida em Macau, cidade que a viu chegar miúda, que lhe deu “conforto” e que é mais a casa do que a terra onde nasceu.
Palavra vai trabalhar para a rádio da missão de paz da ONU no Haiti. “Nalgumas missões optou-se pela criação de rádios”, explica. No caso do Haiti, a rádio transmite notícias e programas em francês e no crioulo local, as duas línguas oficiais. “Vou ser coordenadora de um dos programas, com uma equipa de sete jornalistas locais”, continua.
A uma semana de partir, com as malas feitas e a casa empacotada, Mariana Palavra viaja no tempo, num regresso ao final de 2002. “É a mesma sensação e o mesmo impulso que me levaram a sair do trabalho” em Portugal. Mas há mais nesta opção: “Tem também a ver com a vontade de ir crescendo um pouco, de ver coisas diferentes, e com uma certa saudade de ter um friozinho na barriga, que é muitas vezes aquilo que faz com que me mexa, que faça coisas diferentes e me entusiasme”.
De mochila às costas percorreu muita Ásia nesta sua estadia, e muitas vezes sozinha, mas a jornalista não se considera uma aventureira. Nem mesmo agora que vai para uma missão de paz. “Sou muito medrosa, mas é ao vencer estes medos que cresço”, confessa.
Embora o Haiti seja das missões de paz menos complicadas da ONU no que à segurança diz respeito, Mariana Palavra sabe que a realidade que a espera não é fácil. Mas só assim esta decisão faz sentido. “Concorri a alguns trabalhos específicos mas nunca para trabalhos em escritórios. Todas as candidaturas foram para o terreno, para as missões de paz.”

O fascínio do terreno

A ideia de trabalhar na área da cooperação internacional e das acções humanitárias surgiu quando frequentava a Universidade de Coimbra, onde tirou o curso de Jornalismo. “Fiz uma pequena abordagem, uma pós-graduação em Democratização e Direitos Humanos.” A vinda para Macau dois anos depois de acabar o curso fez com que o projecto tivesse sido posto de lado. Temporariamente.
“Há cerca de ano e meio comecei a pensar outra vez nessa possibilidade. Inscrevi-me num mestrado à distância nessa área e comecei a surfar pelo sites de organizações que fazem trabalho humanitário”, conta.
As candidaturas que enviou foram sempre para missões de paz porque o trabalho ao nível do terreno exerce outro fascínio. “Tenho consciência de que há muitas falhas no trabalho da ONU”, reflecte, defendendo que deveria ser capaz de uma intervenção mais efectiva no que diz respeito à melhoria das condições de vida das populações. “Vou ser eu a salvadora? Claro que não, mas quero tentar, entrar na engrenagem e dar algum contributo.” Nesse sentido, “acho que é muito mais fácil dá-lo no terreno em condições desfavoráveis do que num escritório qualquer na Suíça ou em Nova Iorque”.

Informar para reduzir a pobreza

Quando se pensa em acções humanitárias, associa-se o trabalho de campo a áreas elementares como a alimentação e os cuidados médicos. O trabalho que Mariana Palavra vai fazer enquadra-se numa outra esfera – o direito à informação – mas vai além dela.
A jornalista explica que, quando começou a pensar em candidatar-se, percebeu que as organizações não-governamentais de ajuda humanitária andam quase sempre à procura de pessoas altamente qualificadas em determinadas profissões.
“Achava que me poderia oferecer para estar num campo de refugiados para dar apoio logístico ou outro tipo de funções não qualificadas. Mas essas estão reservadas para os locais, o que faz todo o sentido”, diz. O facto de, numa primeira pesquisa, os lugares vagos não estarem relacionados com a sua formação académica, deixou-a “desanimada”. Foi então que surgiu o contacto para a vaga no Haiti.
“A ideia de poder continuar numa área que escolhi quando tinha 18 anos e de que ainda hoje gosto, e numa área mais ampla que é a dos Direitos Humanos e Cooperação Internacional, pela qual me comecei a interessar há menos tempo, deixou-me muito satisfeita”, afirma.
Trabalhar num órgão de comunicação social numa missão de paz tem uma importância que nem sempre é lida de imediato. A ONU começou a criar as suas estações de rádio como uma forma de trabalhar na “criação de consciências, na tentativa de fiscalização dos poderes instalados, por norma fragilizados, e no próprio controlo e fiscalização dos trabalhos da organizações não-governamentais no terreno”.
Por outro lado, acrescenta a jornalista, a comunicação social tem um papel a desenvolver “no envolvimento da sociedade civil, que está desmoralizada e completamente fora do âmbito político, a viver com um dólar por dia”.
Este envolvimento faz-se “ao colocar a sociedade civil na primeira linha nas notícias, ao sair para a rua e fazer entrevistas a quem lá vive, sempre numa perspectiva positiva”, procurando exemplos que sirvam de referência a quem está em situações de contornos semelhantes.
“Por isso é que há um esforço de algumas ONG e da própria ONU em tentarem convencer os governos doadores, que ajudam em determinados dossiês, a darem também apoios para os media locais, que podem ter uma importância que muitos países não conseguem ainda perceber”, refere. “Há um papel muito mais vasto a desempenhar do que o do direito à informação. Os media podem ser actores na redução da pobreza.”

Macau e os sorrisos

De Macau, Mariana Palavra leva memórias de conforto e a aprendizagem de uma nova cultura. “Foi a minha primeira experiência como estrangeira, num ponto do mundo que não conhecia, numa cultura rica e diferente.”
De tudo o que viu e aprendeu, o que mais a marcou foi a forma de estar da população chinesa e “os deliciosos passeios em Macau e idas à China, as conversas gestuais e sobretudo os risos, o facto de perceber que temos de ser sempre humildes, perceber que somos diferentes mas que, na verdade, somos iguais”.
A jornalista interessou-se pelas línguas que se falam neste ponto do planeta. “Não sei nada, não estudei a fundo, mas adoro mandarim. Comecei a aprender cantonês e quando me irrito é comigo, porque não estudei o suficiente.” Não obstante as dificuldades de comunicação, que se ultrapassam com “empatia e um sorriso”, diz sentir-se “em casa”.
“Sempre fui muito mimada aqui”, sorri. A dimensão da comunidade e a proximidade criada pelo meio de comunicação em que trabalhou para isso contribuíram. “Logo desde o início que as pessoas falavam e me cumprimentavam na rua. Quando cortei o cabelo, houve duas semanas em que andar na rua era um convívio”, conta Palavra com uma gargalhada. “Não é mérito. Somos poucos e eu fui uma das pessoas que lhes apareceu em casa.”

Isabel Castro, in Ponto Final

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