À espera do que vem de Pequim

Análise à forma como a imprensa local trata as eleições do Chefe do Executivo

Ainda se desconhece a data das eleições, mas o acontecimento político do ano é, sem dúvida, a escolha do sucessor de Edmund Ho. Porém, a poucos meses do acto eleitoral, o tema é abordado com cautela e reservas na imprensa de língua chinesa. Há quem ache a atitude sensata; outros associam-na aos constrangimentos do sistema.

É assunto que, para já, parece não constar das agendas de quem noticia em língua chinesa. As eleições para o Chefe do Executivo são um acontecimento distante da maioria da população e os jornais reflectem essa realidade.
Com raras excepções – a visita de Xi Jiping a Macau e as reuniões no Grande Palácio do Povo do início deste mês – o assunto não tem sido abordado com frequência.
A entrega das candidaturas para a comissão eleitoral do Chefe do Executivo serviu de pretexto para perguntar aos elementos do colégio qual deverá ser o perfil do sucessor de Edmund Ho, mas ninguém avançou com nomes de possíveis candidatos. Nem os que vão escolher o líder político da RAEM, nem os seus entrevistadores.
“Os jornalistas precisam de algum tempo para observarem”, analisa o politólogo Larry So. “Não sei a razão concreta de darem pouco destaque a este tipo de assuntos, mas talvez tenham de esperar pelo período da campanha eleitoral para então falarem do tema abertamente”, acrescentou o académico que desenvolve trabalhos sobre os sistemas políticos de Macau e de Hong Kong.
Larry So acredita que não há um tabu em torno do tema – apenas uma postura reservada, para evitar que o destaque dado a um provável candidato seja entendido como apoio expresso.
“Provavelmente a imprensa em língua chinesa acredita que será melhor manter uma postura reservada em relação ao assunto, porque não quer dar a entender que está a dar cobertura a nenhum candidato em especial. Por isso é que não fazem análises sobre quem será o candidato mais forte”, acrescentou o académico.

Reservas e indicações

No princípio do mês, uma revista oficial da Liga da Juventude Comunista Chinesa publicou um artigo em que apoia, manifestamente, a possibilidade de Ho Chio Meng se candidatar a Chefe do Executivo, um facto de que este jornal deu conta na passada sexta-feira. Larry So leu o artigo da revista e não deixa de estranhar o facto de não se ter comentado em Macau a atenção dada ao procurador pela China, mas enquadra esta opção na tal “atitude reservada”.
Já Camões Tam, presidente da Associação de Jornalistas de Hong Kong, associa as poucas notícias que têm sido publicadas em torno do acontecimento politico do ano à vontade que Pequim tem de que assim seja. “O canal de televisão Phoenix entrevistou Ho Chio Meng há alguns meses, num programa, mas tanto quanto sei terão sido dadas indicações para que os outros potenciais candidatos não sejam entrevistados”, apontou.
A matéria é sensível e, como ainda não há uma decisão final de Pequim sobre quem será o candidato merecedor do apoio do Governo Central, os órgãos de comunicação social que chegam à maioria da população tendem a seguir o modo de agir das autoridades, analisa ainda o presidente da Associação de Jornalistas da região vizinha.

Especificidades do sistema

“Sem querer tecer juízos de valor sobre outra imprensa, enquanto jornalista, se tivesse informações palpáveis que me permitissem notícias sobre um dos assuntos mais interessantes do ano, eu publicaria”, começa por dizer Paulo Azevedo.
O responsável pela revista Macau Business, que é também presidente da Associação de Imprensa Portuguesa e Inglesa de Macau, ressalva, porém, que o facto de outros jornalistas não alimentarem notícias em torno do tema não significa que estão a agir mal. “Muito do que se passa são rumores, informação e contra-informação, e neste tipo de situações gostarão de estar a jogar um pouco mais pelo seguro, o que é capaz de ser natural”, afirma.
O modo como este tipo de temática é abordado tem, contudo, “a ver muito com as especificidades não só de Macau, mas da fórmula que foi defendida para as duas regiões administrativas”. Neste momento e até se saber quem serão os candidatos – e sobretudo o que Pequim vê com melhores olhos – “a informação é muito encriptada”.
“A forma como o Governo central e as autoridades muito cautelosamente abordam esta matéria fará com que a imprensa não arrisque muito”, analisa ainda Azevedo. Não deixa de ser, porém, “um reflexo da imprensa que temos” e “do sistema e do modo de fazer política em Macau e na China Continental, que é muito diferente da forma mais aberta e arriscada com que se faz política na Europa e nos Estados Unidos”.
Paulo Azevedo considera que a imprensa em língua chinesa de Macau “é um bocadinho mais conservadora” quando comparando com outros países, o que não é necessariamente mau, principalmente quando se olha para exemplos como o do Reino Unido, em que a especulação se confunde com a notícia.
Por aqui, “só quando há alguma coisa palpável é que se pode avançar com algo”, sublinha. “Em Hong Kong já há uma imprensa pré-tablóide. Já se arrisca um pouco mais.”

Isabel Castro, in Ponto Final

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