Uma lista para ti, uma lista para mim

Alves e Coutinho com posições diferentes em relação a uma só candidatura macaense à AL

Não deverá ser fácil a comunidade política macaense juntar-se numa só lista nas próximas legislativas. Leonel Alves defende a aposta numa cara nova ne uma plataforma de influência da comunidade lusófona; Pereira Coutinho está aberto ao diálogo, mas exige que o número dois tenha os mesmos ideais políticos. Num debate organizado ontem pela Associação de Imprensa em Português e Inglês de Macau, Amélia António e Carlos Marreiros preferiram falar da cidadania como forma de intervenção.

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Volvidos quase dez anos da criação da RAEM e a meses das eleições para a Assembleia Legislativa, há espaço para a comunidade portuguesa ter um papel político? Se sim, de que forma? A pergunta foi lançada a quatro elementos de destaque da comunidade portuguesa e, embora haja alguns aspectos em que parece haver consenso, as análises feitas são bastante diferentes.
Leonel Alves, Pereira Coutinho, Amélia António e Carlos Marreiros foram os quatro convidados de um debate promovido ontem pela Associação de Imprensa em Português e Inglês de Macau (AIPIM).
A grande questão do momento no que toca às eleições em 2009 é saber se os grupos políticos a que os dois deputados pertencem vão chegar a um entendimento quanto a uma lista conjunta. As respostas dadas indicam que tal cenário será de difícil concretização.
“Não tenho duas caras, estou sempre aberto a todas as opções”, começou por explicar Pereira Coutinho, recordando que tanto em 2001 como em 2005, a lista pela qual foi eleito – a Nova Esperança – entrou em diálogo com a Macau Sempre e a Por Macau numa tentativa de se chegar a uma única candidatura, o que acabou por não acontecer.
Não obstante a disponibilidade, o deputado eleito por via directa em 2005 não deixou de explicar quais são os seus limites. “Eu nunca poderei ficar na segunda posição, até porque se assim for, não serei eleito, muita gente deixará de votar”, afirmou. Seguiram-se outras exigências: “Os ideais políticos têm de permanecer inalterados.” O número dois da lista de Coutinho tem de “agir de forma séria, independente” e não ter medo de criticar o Governo.
Em suma, resumiu o deputado, há primeiro que encontrar valores comuns entre os dois grupos políticos e, depois, alguém que se encaixe no perfil traçado pelo presidente da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau.

O “mínimo comum”

Leonel Alves não afastou directamente a possibilidade de uma só lista, mas colocou a tónica da sua intervenção na necessidade de novos valores na política. Tal não significa que não reconheça o trabalho de Coutinho, a quem chama “o campeão de votos”.
Para o deputado eleito por via indirecta, que demonstrou o seu apoio às listas Macau Sempre e Por Macau nas duas últimas legislativas, o momento que a RAEM vai atravessar nos próximos anos exige “novos equilíbrios, uma participação activa e credível da comunidade lusófona”.
Alves começou por deixar um alerta sobre o novo ciclo em que Macau deverá entrar no futuro próximo, e que será caracterizado por mudanças. “As coisas tal como estão não podem continuar, os próximos cinco a dez anos vão ser de várias alterações”, frisou.
“Nos últimos três, quatro anos a sociedade civil tem sido muito dinâmica.” Assim sendo, defendeu, “não podemos ficar fora deste contexto”. Alves considera que a melhor forma de a comunidade lusófona (termo que prefere utilizar em vez de macaense ou portuguesa, por ser mais abrangente) marcar presença passa essencialmente por encontrar “plataformas mínimas de consenso” entre as rivalidades, algo indispensável “perante as mudanças que se avizinham”.
O também membro do Conselho Executivo reconheceu a dificuldade de uma nova candidatura ter possibilidade de conquistar os seis ou sete mil votos necessários para eleger o seu cabeça de lista mas, apesar dos insucessos do passado, acha que não se pode abdicar de uma participação. Mas vincou “a necessidade de uma plataforma duradoura, mais ou menos institucionalizada, que encontre forma de transmitir de modo sólido o mínimo comum que nos une”.
Ressalvando o respeito pelo trabalho de Pereira Coutinho, Alves sustentou que “as iniciativas não podem ser individuais”.

Política não é só a AL

Para a presidente da Casa de Portugal em Macau, Amélia António, a fronteira entre a participação política e o exercício da cidadania é ténue, uma perspectiva que se assemelha à defendida pelo arquitecto Carlos Marreiros, que prefere uma análise ética em vez de uma abordagem étnica da questão.
“Cabe à comunidade um papel extremamente activo e participante”, disse a advogada. “É preciso ultrapassar a inércia da sociedade civil que acorda em vésperas de eleições. O trabalho político não é só o das eleições. É o trabalho da cidadania e da intervenção no dia-a-dia, quer através das estruturas onde os membros da comunidade trabalham, quer através das associações.”
Carlos Marreiros é crítico em relação a estes movimentos criados à última da hora quando as eleições já estão marcadas. “Mas as coisas são como são, desta vez até se está a falar com meses de antecedência”, continuou.
Para o arquitecto, que se define como um activista e não um político, o mais importante é a participação no dia-a-dia. E tal está dependente da competência da comunidade que, em termos históricos, sempre deu “um contributo fundamental a Macau”.
O arquitecto salientou ainda o facto de a comunidade de língua portuguesa ter sido renovada e estar a contribuir, pela sua postura e ideias, para a “miscigenação de sensibilidades, a oriental e ocidental”.

Jovens? Onde?

A questão da participação dos jovens acabou por ser um dos temas do debate. Leonel Alves quer caras novas na política, Pereira Coutinho lamentou o fim das autarquias por terem sido espaços intermédios da formação de políticos. Casimiro Pinto, tradutor e cantor macaense, quis pronunciar-se sobre a questão.
“Não vejo ninguém a querer ser político”, disse o tradutor referindo-se à comunidade macaense. Casimiro Pinto tem sido falado nalguns meios como uma possibilidade de ser a renovação que se pretende na presença política macaense. Contudo, ontem lamentou o facto de não ver “nenhuma plataforma de partilha de experiências” entre os políticos com currículo e os poucos que aspiram a este tipo de participação.
De resto, numa sala com mais de quarenta pessoas, falou-se de diferentes aspectos da presença portuguesa em Macau. Algumas mostraram preocupações com a manutenção da língua em diferentes sectores.
Houve quem tivesse sugerido a criação de uma associação política de matriz portuguesa, que fosse além da participação nas eleições legislativas, mas a ideia foi contestada por quem entende que uma língua em comum não implica obrigatoriamente a defesa dos mesmos valores.

Isabel Castro, in Ponto Final

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