A política chinesa serve-se fria

Chui Sai On e Ho Chio Meng são os mais fortes, mas Tam ainda não saiu da corrida

O apoio expresso dado pela Liga da Juventude Comunista Chinesa tem importância no xadrez político de Pequim, mas tal não significa que tenha havido um xeque-mate. Chui Sai On também conta com influências relevantes de outras alas do Partido. Quem manda ainda não terá decidido mas a divisão das forças políticas chinesas poderá trazer para a ribalta o mais discreto dos potenciais candidatos: Francis Tam.

É um meio a que pertencem muito poucos e a eleição para o Chefe do Executivo demonstra isso mesmo. A política à chinesa faz-se longe dos olhares da população em geral e, apesar de a China ser una na forma como comunica as suas decisões, nem sempre estas resultam de processos consensuais.
No meio dos misteriosos contornos de quem será o próximo líder do Governo da RAEM, a ala jovem do Partido Comunista Chinês (PCC) veio demonstrar o seu apoio a Ho Chio Meng, o procurador da RAEM, através de um grande destaque dado na revista oficial “China Profiles”. Porém, este voto de confiança dado por uma estrutura com peso dentro do partido não é sinónimo de que o Politburo já tenha decidido quem é o “seu” candidato.
“A ‘China Profiles’ tem o cuidado de referir que há outros candidatos”, analisou ao PONTO FINAL o politólogo Sonny Lo. A publicação admite que existem outros interessados no cargo “quando considera que Ho Chio Meng é o ‘cavalo negro'”. Traduzindo para português, a imagem criada por estes dois caracteres tem como significado alguém que tem feitio de campeão, que consegue vencer a corrida. Logo, há mais gente com vontade de chegar à meta.
Para o académico analista dos sistemas políticos de Macau e de Hong Kong, o artigo da “China Profiles” demonstra que Ho tem o apoio indubitável de uma organização muito importante dentro do PCC – a Liga da Juventude Comunista Chinesa. “As características apontadas no perfil que o próximo Chefe do Executivo deve ter são apenas as de Ho Chio Meng”, salienta Lo, fazendo referência à conclusão a que os autores do artigo chegam.
O politólogo destaca ainda o facto de, pela primeira vez, ter sido tornado público o passado do procurador.

Ho mais visível

O facto de Ho estar a ser publicamente apoiado por uma facção do Partido Comunista Chinês, mais jovem e com ligações fortes ao sector judiciário no Continente, não é o único sinal do seu interesse em ser o próximo Chefe do Executivo.
Recentemente, o procurador tem sido visto publicamente em Macau, em acções de instituições locais, um gesto que é interpretado por analistas da política local como sendo uma tentativa de aproximação aos diferentes sectores do território.
Ho Chio Meng não é, por norma, uma personalidade com visibilidade pública semelhante à de outros potenciais candidatos, e tem reservas no contacto com a imprensa. Porém, recentemente, deu uma grande entrevista em mandarim à estação de televisão Phoenix, transmitida em toda a China e em Taiwan, o que faz alguns acreditarem que o procurador está a tentar construir a sua imagem política.
O nome do responsável pelo Ministério Público na lista de eventuais candidatos começou a ser discutido publicamente no princípio do ano passado na sequência de um artigo do jornal Va Kio em que se debateram as vantagens e desvantagens de cada uma das hipóteses. O grande trunfo de Ho Chio Meng foi o caso Ao Man Long.

Quem apoia Chui

O procurador da RAEM foi, na realidade, o único que saiu bem no retrato neste escândalo de corrupção que abalou não só a imagem de Macau como a de toda a equipa governativa de Edmund Ho.
Fontes da política local acreditam que, se a conduta do ex-secretário tivesse sido outra, não havia neste momento dúvidas em relação ao nome do futuro Chefe do Executivo.
Edmund Ho, chamado a pronunciar-se sobre o seu sucessor, terá indicado Chui Sai On para o lugar – pertencem ambos à mesma “família” política e o secretário para os Assuntos Sociais e Cultura seria a forma de garantir a continuidade na governação.
Acontece que, segundo fonte do PONTO FINAL, as autoridades centrais poderão estar a ponderar uma mudança de estilo na gestão da política local. A actividade empresarial de Chui e da sua família é publicamente conhecida e os líderes chineses ainda não descartaram a hipótese de terem alguém mais “neutro” em termos sociais.
Não obstante, Chui Sai On conta com fortes apoios: além de empresários locais com funções políticas em Pequim, o secretário para os Assuntos Sociais e Cultura tem do seu lado o Gabinete de Ligação do Governo Central na RAEM e o Gabinete dos Assuntos de Hong Kong e Macau do Conselho de Estado.

A calma de Tam

Este cenário revela que haverá uma divisão em Pequim, o que não será surpreendente se tivermos em conta as diferentes correntes que existem dentro do PCC. Caberá ao Politburo decidir quem será o candidato que mais convém à China e a Macau para os próximos cinco anos – uma escolha que poderá ser para dez anos, uma vez que se acredita que, a correr tudo da melhor forma, o próximo Chefe do Executivo deverá cumprir dois mandatos.
E é chegando a este ponto que algumas fontes deste jornal conhecedoras dos meandros da política chinesa acreditam que Francis Tam ainda tem hipóteses: discreto e com posições mais neutrais, não tem assumido posições públicas que permitam perceber o seu interesse e disponibilidade em ser o líder do Governo.
Embora faça parte da equipa governativa do actual Chefe do Executivo, o secretário para a Economia e Finanças não tem a mesma proximidade política que Chui tem em relação a Ho.
A solução Tam poderá ser adoptada como forma de não criar fissuras dentro do próprio PCC. Embora a eleição do Chefe do Executivo seja formalmente decidida pelos 300 membros do colégio que o elegem, em termos práticos o apoio de Pequim é imprescindível para garantir o sucesso da eleição.
Para alguns analistas, certo é que, neste momento, ainda não há uma decisão definitiva em torno do nome consensual.
O académico Sonny Lo não acredita que antes do período da campanha eleitoral haja algum candidato a comunicar publicamente o seu interesse. “Não quero com isto dizer que essa hipótese não se venha a verificar, mas acho pouco provável. É preciso ir analisando os sinais.”
Para já, nesta forma de agir politicamente tão própria da China, os sinais que existem são poucos e levam a pensar que o resultado dos jogos de bastidores serão apresentados de forma a que não haja qualquer possibilidade de corridas acaloradas disputadas em público.

Isabel Castro, in Ponto Final

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