A vez dos defensores do Governo

Deputados de Macau contra “pessoas” de Hong Kong que “só incomodam turistas”

Era previsível. A polémica subiu de tom numa altura em que grande parte dos políticos mais próximos do Governo se encontrava nas reuniões magnas de Pequim. De regresso ao território, eis a reacção: alguns deputados à Assembleia Legislativa estão contra os seus homólogos de Hong Kong. As críticas foram também para a Associação Novo Macau Democrático.

Foi a primeira intervenção do período antes da ordem do dia e deu origem a uma troca de palavras com Ng Kuok Cheong. Tsui Wai Kwan, deputado nomeado pelo Chefe do Executivo, considera que “as pessoas do exterior” que no domingo passado vieram a Macau devem ser classificadas como “persona non grata”.
O empresário referia-se ao grupo de 35 residentes de Hong Kong – deputados ao Conselho Legislativo e activistas da ala democrata – que, há cinco dias, se deslocaram ao território para testar a política de imigração das autoridades locais, depois de uma série de episódios em que viram ser-lhes negada a entrada.
Para Tsui, é gente que não faz cá falta. “Chegaram ao terminal marítimo exibindo uma faixa com palavras de ordem, e tiraram fotografias em zonas proibidas, assustando e incomodando os turistas que ali se encontravam”, apontou.
“Essas pessoas”, continuou, “todos os dias fazem barulho, tendo mesmo recentemente emitido bastantes comentários sobre a política de entradas e saídas de Macau”. O ataque subiu depois de tom, ao considerar que deve ser atribuída a classificação de “persona non grata” a essas “pessoas”.
Tsui Wai Kwan – que jamais utilizou a palavra “deputados” para se referir ao grupo de membros do Conselho Legislativo de Hong Kong, por sinal eleitos por via directa – entende que é “ilógico e arbitrário que alguém de fora meta o nariz no assunto”, vincando que “a política de entradas e saídas é uma política interna da região”.

A “associação de Macau”

Mas o uso da palavra no plenário de ontem não se destinou a criticar apenas “o grupo de pessoas do exterior”, pois Tsui Wai Kwan rapidamente alargou o discurso condenatório a “uma associação local liderada por deputados à AL”, que apoiou “os actos irracionais e indelicados de interferência violenta” dos residentes de Hong Kong.
O deputado fez os seus reparos muito ao estilo político local: durante toda a intervenção, não se dirigiu directamente a Ng Kuok Cheong e a Au Kam San nem pronunciou o nome da Associação Novo Macau Democrático (ANDM). É uma fuga ao confronto directo, em que, não obstante a dureza das críticas, os seus destinatários são sempre disfarçados num código que é do conhecimento de todos.
“A associação em causa [leia-se ANDM] uniu-se às pessoas de fora para ferir os sentimentos dos nossos residentes e a dignidade de Macau, e para atropelar uma lei produzida pela AL, o que só pode ser motivo de grande indignação”, atirou Tsui.
Outra análise: “Uma associação de Macau [leia-se igualmente ANDM] dirigiu uma carta ao Ministério Público, a qual apontava a alegada aplicação abusiva da referida lei, questionando ainda a eventual existência de ilegalidade administrativa.” Tsui não compreende porque é que “raramente” se ouve “aquela associação [leia-se ANDM, claro está]” manifestar alguma preocupação em relação ao tratamento dado aos residentes de Macau em Hong Kong.
“Quando uma associação de Macau [outra vez a ANDM], liderada por deputados à AL, assume este tipo de atitude tão anormal, pode levar-nos a considerar que, de facto, não está a trabalhar decentemente”, acrescentou Tsui Wai Kwan, que ainda esteve mais alguns minutos a tecer considerações de pesar sobre as prevaricações das “pessoas de Hong Kong” em solo de Macau.

A resposta de Ng

Ng Kuok Cheong tem um estilo mais directo e, apesar de em termos formais retóricos Tsui Wai Kwan não se ter dirigido a ele, o deputado não esteve com meias palavras.
“Quanto aos [problemas dos] residentes de Macau ao entrarem em Hong Kong, será que há insuficiências? Nesse caso aceito as críticas. Mas quanto às criticas irracionais, não as posso aceitar”, contra-argumentou, sem mais.
Mas o assunto não ficou por ali. Também Chan Meng Kam, o deputado de Fujien, quis dizer das suas aos malfeitores da antiga colónia britânica. E isto porque os acontecimentos dos últimos tempos indicam-lhe que há “a intenção de reforçar a intervenção de estranhos nos assuntos da RAEM”.
Chan considera que estes “indivíduos” perturbaram o ambiente social de Macau. Referindo-se à comitiva de deputados e activistas políticos (termos que não utilizou, optando por “indivíduos” e “pessoas”), o membro da AL explicou o que se passou no domingo.
“Uma minoria de pessoas de Hong Kong deslocou-se a Macau para dar show nas ruas, e antes de virem, os organizadores desse show alegaram ter preparado ferramentas e três soluções para responder às diferentes formas de tratamento da polícia de Macau, o que significa que já estavam preparados para arranjar problemas em Macau”, esclareceu.
Seguiu-se a fundamentação de ordem jurídica de Chan Meng Kam em relação à lei de bases de segurança interna – argumento usado pela polícia para impedir a entrada de alguns residentes de Hong Kong. O deputado alegou que há um tratamento “desigual” no que diz respeito à entrada e saída de pessoas das duas regiões administrativas especiais, sustentando que têm mais problemas os residentes de Macau em Hong Kong do que os visitantes da antiga colónia britânica na RAEM.

Isabel Castro, in Ponto Final

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