Diplomatas preocupados, jornais atentos

Editoriais da imprensa chinesa de Hong Kong criticam postura do Governo de Macau

Se a ideia era fazer com que o assunto passasse ao esquecimento, o objectivo não parece ter sido alcançado. No domingo passado entraram muitos dos ex-inadmissíveis, mas não entraram todos. À semelhança dos inconformados deputados de Hong Kong, também a imprensa da antiga colónia britânica continua a insistir na questão.

O facto de o activista mais polémico de Hong Kong, o famoso Long Hair, não ter entrado em Macau no passado domingo é visto localmente como algo “normal”. É assim que pensam os analistas atentos à reacção local e o Governo da RAEM sabe que poucos se indignarão com o facto de o deputado do Conselho Legislativo da região vizinha ter ficado à porta.
Era suposto que a entrada de grande parte da comitiva de deputados e activistas da ala democrática contribuísse para atenuar a polémica em torno dos impedimentos alfandegários de Macau. A julgar pelo que a imprensa do território vizinho tem vindo a escrever desde domingo passado, os ânimos não se acalmaram.
Ontem, em mais um artigo publicado sobre o tema, o South China Morning Post (SCMP) dava a conhecer os receios de diplomatas estrangeiros com o que tem vindo a acontecer nas fronteiras da RAEM.
De acordo com o matutino em língua inglesa, os impedimentos colocados por Macau passaram a ter uma dimensão internacional, com os consulados estrangeiros a expressarem a sua preocupação ao Governo de Edmund Ho.
Entre estas representações diplomáticas encontra-se o consulado britânico, que já falou com o Executivo de Macau acerca do assunto. “Em conjunto com os nossos parceiros da União Europeia, temos estado a seguir estes impedimentos nos últimos meses”, disse um porta-voz da representação diplomática ao SCMP.
“Colocámos a questão numa reunião com o Governo de Macau na passada semana”, acrescentou o porta-voz.
Fonte não identificada da ala democrática de Hong Kong disse ao matutino que um consulado de um país estrangeiro ofereceu apoio depois de se ter mostrado preocupado com o obstáculos colocados pelas autoridades da RAEM. Esta manifestação de apoio aconteceu dias antes da visita da comitiva de deputados e activistas a Macau, que resultou na entrada de grande parte do grupo, mas que ficou também marcada pelo facto de terem ficado à porta os deputados Leung Kwok-hung e Lee Cheuk-yan, líder da Confederação dos Sindicatos de Trabalhadores de Hong Kong.
Lee está a planear apresentar queixa à Confederação Internacional dos Sindicatos, para que o problema seja levado à Organização Mundial do Trabalho, uma vez que o deputado entende que os obstáculos na fronteira impedem a relação normal entre associações de defesa dos trabalhadores das duas regiões administrativas especiais.
O South China recorda que não é a primeira vez que as representações diplomáticas estrangeiras se pronunciam sobre restrições no acesso a Hong Kong e Macau. No ano passado, aquando da passagem da tocha olímpica pela antiga colónia britânica, vários estrangeiros não conseguiram entrar na RAEHK.
O deputado Chan Kam-lam, da DAB (partido pró-Pequim), reagiu às preocupações dos consulados estrangeiros, dizendo que não devem interferir nos assuntos de Macau e de Hong Kong.
“A quantas pessoas é que os Estados Unidos recusam a entrada todos os dias? Macau não é um assunto de estrangeiros”, disse Chan ao SCMP.
Já uma fonte não identificada do governo de Hong Kong considerou que a situação está a melhorar, uma vez que o número de democratas que entrou no domingo foi superior ao esperado.

Onde está a ameaça?

Já na imprensa em língua chinesa, foram publicados vários editoriais em que se condena a atitude das autoridades de Macau, mas o Governo de Hong Kong também é criticado.
O Ming Pao recorda que a polícia da RAEM alega a lei de bases de segurança interna, para lamentar que não sejam dadas “razões específicas” para negar a entrada a cinco elementos da comitiva. “Estes activistas não estão envolvidos em criminalidade organizada nem em actividades terroristas”, contesta o diário.
Para o Oriental Daily, os impedimentos colocados a estes cinco políticos demonstram “a determinação do Executivo de Macau em fazer aquilo que considera ser apropriado – neste caso a aplicação da sua lei de segurança interna – apesar das pressões do exterior”.
O jornal aproveita para criticar a administração de Donald Tsang. “O Governo de Hong Kong vincou sempre a importância de uma liderança forte ao longo dos últimos anos mas é o Governo de Macau que atinge os objectivos. O Governo de Hong Kong deveria estar envergonhado da sua fraqueza e incapacidade.”
O Apple Daily optou por considerar “nada convincente” a justificação dada pelas forças policiais de Macau. “Embora os cinco activistas tenham participado em campanhas políticas e sociais – que foram sempre levadas a cabo de forma pacífica e legal – estão apenas a exercer um direito garantido pelos tratados internacionais”, sublinha o jornal.
“Como podem ser eles uma ameaça à segurança pública de Macau?” interroga o Apple Daily, lançando em seguida uma forte crítica às autoridades da RAEM. “Pensámos que a maior ameaça à lei e ordem em Macau é o Governo de Macau, e a sua fraca governação levou a um aumento do fosso entre ricos e pobres e a um descontentamento social generalizado na cidade”, atira o matutino.

Isabel Castro, in Ponto Final

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