Terreno fértil para teorias da conspiração

Camões Tam diz que lista de indesejáveis foi engrossada deliberadamente para prejudicar Edmund Ho

Há alguém que pretende criar problemas aos líderes de Macau, especialmente a Edmund Ho, e está a fazê-lo ao adicionar nomes à lista de indesejáveis da região vizinha. A acusação é feita pelo presidente da Associação de Jornalistas de Hong Kong, Camões Tam, que garante que as manobras de bastidores se prendem com a eleição do próximo Chefe do Executivo.

O Governo de Macau não quer cá gente que crie problemas ou se imiscua em matérias internas. Mas não é, para Camões Tam, a única ou a verdadeira justificação para esta vasta lista de indesejáveis de Hong Kong. Para o presidente da Associação de Jornalistas de Hong Kong, esta série com vários episódios que mete ao barulho deputados, políticos e académicos da antiga colónia britânica tem na origem “uma luta estranha” política.
“Sei que pode ter havido um problema durante a elaboração desta lista. Talvez tenha acontecido alguma luta estranha nos bastidores”, afirmou Tam em entrevista ao PONTO FINAL.
“Talvez a lista seja muito pequena mas, ao longo do processo de elaboração, foram adicionados muitos nomes sem qualquer relação, de modo a causar problemas a alguns líderes de Macau, como por exemplo a Edmund Ho.”
O presidente da Associação de Jornalistas de Hong Kong cita fontes não identificadas para garantir que se tratou de um acto intencional. Só assim se explica a razão da interdição de pessoas como Johannes Chan Man-mun, o professor de Direito da Universidade de Hong Kong, ou de Felix Wong, o fotojornalista do South China Morning Post.
As informações de que Camões Tam dispõe levam-no a afirmar que existe “alguém” que “quer que haja muitos problemas em Macau, especialmente durante o processo de eleição do Chefe do Executivo”.

Como se faz uma lista negra

As autoridades de Macau têm vindo a negar a existência de uma lista negra. “Claro! O nome oficial da lista é ‘persona non grata’. O facto de Macau dizer que não tem uma lista negra é um jargão político”, comenta Camões Tam.
A lista de indesejáveis existe e resulta, assegura, da “combinação de três fontes”. A primeira é Pequim – o Governo Central -, “talvez compilada por alguma unidade de segurança, pelo Departamento Nacional de Segurança, que a transfere para o Gabinete dos Assuntos de Hong Kong e Macau”.
A segunda fonte da lista, prossegue Tam, “é o Gabinete de Ligação de Hong Kong e Macau”. Por último, a composição deste rol de nomes conta com a intervenção do próprio Gabinete da Segurança do Governo da RAEM, explica. “Sei que esta longa lista resulta da combinação destas três fontes. São elas que providenciam os nomes, às vezes com base apenas no que lêem nos jornais.”
Seguindo o raciocínio de Camões Tam, é algures nalguma destas três fontes que são adicionados nomes “sem qualquer relação” e que terão contribuído para que o assunto assumisse uma dimensão de tal ordem que chegou a Pequim.
“Fontes do Gabinete dos Assuntos de Hong Kong e Macau disseram-me que deram apenas deram algumas instruções à RAEM, mas não deram indicações para que fosse feita esta lista tão longa”, vinca. “Só dão instruções no sentido de dizerem a Macau que não deixe que forças estrangeiras entrem no território, e nem sequer dão nomes concretos.”

As várias teorias

A teoria de Camões Tam – alguém quer criar problemas ao Chefe do Executivo e aos políticos que lhe estão mais próximos – é diametralmente oposta à apontada pelo jornal Apple Daily na passada semana, que relacionava igualmente as interdições à entrada de Macau com a “guerra” eleitoral deste ano.
Mas o jornal fez uma outra abordagem à questão: citou um democrata que, por sua vez, fez referência a uma fonte da China Continental, para dizer que as proibições recentes têm origem “em apoiantes de Chui Sai On, secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, que receiam que a ‘infiltração’ de forças democratas em Macau possa incentivar exigências de democracia e de medidas de combate à corrupção”.
Segundo o mesmo matutino, se a população da RAEM optasse por estas reivindicações, tal “aumentaria a possibilidade de Chui perder as eleições para o procurador da RAEM, Ho Chio Meng, que tem uma imagem melhor enquanto alguém que combate a corrupção”.
Ora, esta teoria apresenta algumas incompatibilidades com a do presidente da Associação de Jornalistas de Hong Kong. É pública a relação de proximidade que existe entre Edmund Ho e Chui Sai On, que pertencem à mesma “família” política.
De acordo com a linha de pensamento de Camões Tam, se a ampliação desmesurada da lista se deve a um acto intencional de alguém com o objectivo de prejudicar a imagem de Edmund Ho e da sua equipa – criando-lhe um problema difícil de gerir tanto junto das autoridades de Hong Kong como do próprio Governo Central -, Chui Sai On sairia prejudicado.
No meio de todo este enredo, houve ainda quem julgasse que as interdições a residentes de Hong Kong – particularmente aos deputados democratas – se prenderiam com o facto de estes políticos estarem a apoiar um candidato a sucessor de Edmund Ho.
Em declarações ao PONTO FINAL, o presidente do Partido Democrata de Hong Kong, Albert Ho, afastou semelhante leitura: “Para começar, não temos nenhum interesse em apoiar qualquer candidato nas eleições para o Chefe do Executivo, porque pensamos que está longe de ser democrática e não estamos interessados neste tipo de eleições em circuito reduzido”. Além disso, referiu, “os candidatos serão todos pró-governamentais e não tem qualquer efeito positivo no desenvolvimento do sistema político de Hong Kong”.
Inicialmente, o facto de se estar a discutir a regulamentação do Artigo 23º parecia ser uma explicação consensual para as interdições na fronteira de Macau, mas passou a ser convicção cada vez mais generalizada entre os analistas atentos ao caso que há outra razão para o que tem vindo a acontecer.
O facto de as autoridades de Macau apontarem a lei de bases de segurança interna como única justificação para as medidas cautelares que adoptam nos postos fronteiriços tem contribuído para a construção destas teorias de conspiração política.

Isabel Castro, in Ponto Final

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