Mudança de atitude ou preocupação estética?

Leituras distintas sobre a entrada de grande parte da comitiva de Hong Kong


Ameaçaram e cumpriram. Os deputados da ala democrata que ontem conseguiram entrar em Macau puseram as autoridades da RAEM entre “a espada e parede”. Há quem entenda que o Governo local decidiu “emendar a mão” antes que o caso atingisse proporções ainda maiores. Numa outra análise, tudo não passou de uma certa operação para limpar a imagem internacional.

Era um teste e Macau terá passado no exame, se bem que longe de ser com louvor e distinção. Para Agnes Lam, analista política que não vê qualquer razão objectiva para que todo este drama tenha acontecido, o Governo de Macau deixou entrar a comitiva de políticos a bem da coesão nacional.
“O Executivo percebeu que, se continuasse a impedir a entrada a deputados e políticos de Hong Kong, iria afectar o Governo de Hong Kong e o princípio ‘um país, dois sistemas’”, comentou Lam ao PONTO FINAL.
É que, depois de a história ter assumido contornos preocupantes com os episódios do professor de Direito de Hong Kong e do fotojornalista do South China Morning Post, o assunto deixou de ser apenas de Macau. “Passou a ser de toda a China”, entende Lam, para quem esta mudança de atitude na fronteira não se deve exclusiva ou principalmente a uma “questão de imagem”.
Já Camões Tam, presidente da Associação de Jornalistas de Hong Kong, faz uma análise diferente da postura das autoridades da RAEM. “Julgo que o Governo de Macau não modificou a sua posição, porque as cinco pessoas mais radicais, incluindo Long Hair, foram proibidas de entrar”, diz. “O facto de terem deixado entrar os outros foi apenas um gesto. Talvez queiram limpar a imagem de Macau.”
Também Tam recorda os casos de Johannes Chan Man-mun e de Felix Wong mas para afirmar que “danificaram seriamente a imagem de Macau a nível internacional”, o que levou “as autoridades a quererem fazer alguma coisa para mudar isto”.

“Long Hair” consensual

Embora a justificação dada pelo Governo de Macau para deixar cinco activistas de fora seja basicamente a mesma que tem vindo a dar nestes últimos tempos – a lei de bases de segurança interna, Agnes Lam entende que, desta feita, o Executivo foi “mais claro”: já tinham sido barrados na fronteira antes, observa a analista política, e são activistas que poderiam “criar alguns problemas”.
Tal não significa que Lam concorde com a política do Governo em matéria de imigração. “Respeito as autoridades da RAEM, mas não acho que seja necessário impedir a entrada a pessoas por causa das suas actividades políticas”, defende. No entanto, em termos de opinião pública, a decisão ontem tomada “é mais fácil de aceitar”.
Camões Tam faz uma análise semelhante. “A maioria das pessoas de Macau, especialmente a comunidade chinesa, apoia o Governo da RAEM na proibição da entrada de ‘Long Hair’.”
Leong Kwok-hung, o polémico deputado do Conselho Legislativo da RAEHK, ficou do lado de lá. “As pessoas entendem que é um arruaceiro, alguém que causa problemas, pelo que apoiam a medida das autoridades.” Por isso, diz ainda Tam, “o Governo não vai mudar a sua política, porque sabe que a maioria das pessoas o apoia”.
No grupo de activistas “indesejáveis” encontra-se ainda Lee Cheuk-yan, também deputado e líder da Confederação dos Sindicatos de Trabalhadores de Hong Kong. Para este impedimento de entrada em solo da RAEM, o presidente da Associação de Jornalistas de Hong Kong tem uma outra teoria. “Embora Lee não seja um deputado radical, também foi impedido de entrar. Têm medo que os políticos de Hong Kong e de Macau se juntem, é com isto que o Governo de Macau se preocupa, mas também ao nível das forças sindicais.”

Isabel Castro, in Ponto Final

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