Uma bota para Edmund Ho descalçar

Deputados democratas de Hong Kong preparados para a viagem do próximo domingo a Macau

Os deputados de Hong Kong que foram barrados na fronteira de Macau ainda não estão verdadeiramente irritados com a situação. Mas vão ficar se, no próximo domingo, forem de novo recambiados para a antiga colónia britânica sem chegarem a pisar o solo da RAEM. Ontem, o grupo liderado por Albert Ho falou dos objectivos da viagem. E explicou que contam com o apoio de Ng Kuok Cheong.

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Estão a postos e desafiam todos os residentes de Hong Kong que se interessem pela causa a juntarem-se a eles. Ontem, no jardim junto ao Conselho Legislativo (Legco, na sigla inglesa) de Hong Kong, os membros do parlamento local eleitos pelo Partido Democrata explicaram à imprensa quais os objectivos da viagem marcada para o próximo domingo.
O destino é Macau e o objectivo principal é conseguirem passar a fronteira. Se não forem barrados à entrada, então vão encontrar-se com Ng Kuok Cheong e outros membros da Associação Novo Macau Democrático (ANDM).
“É uma relação normal, um programa de intercâmbio normal”, vincou o porta-voz do grupo a um grande número de jornalistas que respondeu à chamada dos democratas, a provar o grande interesse que o tema suscita. “Espero que o Governo de Macau deixe que as relações entre Macau e Hong Kong se normalizem e nos permita entrar e participar neste programa.”
A organização desta “viagem de intercâmbio” congratulou-se com a atitude da ANDM. “Estamos muito satisfeitos por ter aceite organizar esta conferência de intercâmbio. Esperamos que o problema da entrada de residentes de Macau em Hong Kong termine este fim-de-semana e que tudo regresse ao normal.”

Um simples sinal

Em entrevista o PONTO FINAL, o presidente do Partido Democrata (HKDP, na sigla inglesa), Albert Ho, manifestou o desejo “sincero” de que não haja qualquer problema à entrada desta vez. E isto porque “o propósito da nossa visita é muito claro e muito simples: pretendemos participar numa conferência com deputados de Macau, entre eles Ng Kuok Cheong, para debater a futura cooperação entre Hong Kong e Macau, e também para trocar perspectivas sobre o desenvolvimento social e político das duas regiões”.
Não há nenhuma lei que impeça este tipo de “intercâmbio muito comum entre os dois territórios”, sublinha o presidente do HKDP, lembrando que “no passado nunca tivemos qualquer problema em entrar em Macau, até mesmo para participar em manifestações ou marchas”. Ho destaca ainda que “não há qualquer registo de comportamento violento” por parte de políticos do seu partido nas actividades que aconteceram em Macau. “Foram levadas a cabo de forma pacífica e racional.”
Por não encontrar justificação legal para as sucessivas interdições a alguns residentes de Hong Kong, continuou, os deputados ficaram “muito perturbados”, sendo que a situação se agravou quando começaram a ser conhecidos episódios semelhantes na fronteira de Macau com académicos e um fotojornalista de Hong Kong. Ho espera que, “desta vez, a questão possa ficar definitivamente resolvida”. A bola está do lado de Macau: “Basta um simples sinal a dizer que tudo voltou ao normal”.

De mal a pior?

O presidente do Partido Democrata jura a pés juntos desconhecer as razões que estão por trás desta decisão de barrar a entrada a políticos e académicos da sua região. “Não tenho qualquer pista sobre o que realmente aconteceu. Não sou capaz de adivinhar as razões por trás disto.” Mas, avisa, “temos sido muito pacientes, estamos à espera há mais de um mês, com esperança de que a situação regressasse ao normal depois da aprovação da lei de defesa da segurança nacional”.
A partir do momento em que “o Chefe do Executivo da RAEM disse que as interdições não tinham nada a ver com a regulamentação do Artigo 23º”, o mistério adensou-se. Mas mais do que explicações, Albert Ho procura agora uma solução para o imbróglio.
“Sabemos que o nosso secretário para a Segurança e o nosso Chefe do Executivo falaram com Macau. Não vejo qualquer razão para que demore tanto tempo a ser resolvido. É um assunto simples, devia ter sido tratado em dois dias.”

“Não sei o que podemos fazer se Macau continuar a insistir com esta política louca de impedir a entrada a políticos, académicos e a um jornalista. Se isso acontecer, teremos que pressionar o Governo a tomar outras medidas.”
“Não sei o que podemos fazer se Macau continuar a insistir com esta política louca de impedir a entrada a políticos, académicos e a um jornalista. Se isso acontecer, teremos que pressionar o Governo a tomar outras medidas.”

Como não foi, e embora o político espere que no domingo a fronteira não seja um problema, não deixa de alertar para a possibilidade de a situação se tornar “ainda pior”. “Já é muito má, está a chegar a um ponto em que se torna um obstáculo nas relações entre as duas regiões administrativas especiais. Tendo em conta que não há qualquer razão convincente, toda a gente é levada a pensar que o problema se encontra em Macau, e não do lado de Hong Kong.”
Albert Ho prefere não fazer previsões sobre o que vai acontecer no próximo domingo caso os deputados sejam obrigados a dar meia volta e regressar à origem. “Não sei o que podemos fazer se Macau continuar a insistir com esta política louca de impedir a entrada a políticos, académicos e a um jornalista. Se isso acontecer, teremos que pressionar o Governo a tomar outras medidas, mas prefiro pensar que tudo irá voltar ao normal no próximo domingo.”

Chatice “a sério”

É assim também que Emily Lau, deputada do Partido Democrata, prefere pensar. Não obstante, tem a perfeita consciência de que, dada a atitude das autoridades de Macau nos últimos tempos e as explicações que foram dadas, a comitiva liderada pelos deputados corre sérios riscos de bater com o nariz na porta. E assim sendo, pondera já o próximo passo.
“A paciência de muita gente está a acabar, isso é certo, porque as pessoas não percebem as razões de tudo isto. Não estou a defender que os residentes de Hong Kong deixem de ir a Macau, não acredito nisso. Mas se continuarem a fazer-nos isto, talvez devêssemos proibir a entrada em Hong Kong de membros do Governo, incluindo Edmund Ho”, atira. “Se nos obrigarem a fazer isso será muito lamentável.”
Para já, o Partido Democrata ainda não ponderou a possibilidade de interpor uma acção em tribunal contra as autoridades da RAEM. Ao PONTO FINAL, Lau explica que, ao contrário da democracia em Hong Kong, “que queremos rapidamente”, o caso Macau exige paciência e calma. Mas como ambas estão prestes a acabar, avisa, “se continuarmos a sermos barrados vamos chatearmo-nos a sério”.

Prova dos nove

No domingo as autoridades de Macau vão ser submetidas a um teste, mas tanto Emily Lau como o presidente do seu partido asseguram que não estão a pôr à prova a influência de Pequim no processo.
“Não é um teste à influência da China. É um teste a Macau, se o comportamento das suas autoridades será racional, como era antes”, assegura Albert Ho. “Não estamos interessados na política por trás disto, pode haver uma dúzia de razões para justificar o que está a acontecer.”
Emily Lau acrescenta que nem sequer querem saber quem interveio. A ideia é ver a situação resolvida ou, se os impedimentos persistirem, a informação chegar a quem dela deve ter conhecimento.
“Fiquei muito chocada quando vi Edmund Ho a dizer no noticiário da televisão que não tinha conhecimento do que algumas das suas pessoas tinham feito. Fomos barrados pelas autoridades policiais, e ele disse que às vezes não sabe o que se passa”, disse, indignada. “Quer tivesse tido conhecimento ou não, agora quero que fique a saber tudo. Se não nos derem permissão para entrarmos em Macau, o assunto vai ter directamente para a sua secretária, pelo que não pode voltar a dizer que não sabia.” A frase seguinte da ex-jornalista tem um só destinatário: “Desculpe, Sr. Edmund Ho, mas isso não basta.”

Eleições sem interesse

E por falar em Chefe do Executivo, no exercício das especulações que se fazem em torno da origem do problema há quem entenda que os democratas de Hong Kong têm um candidato a líder do Governo da RAEM que gostariam de apoiar in loco.
Albert Ho afasta a ideia. “Para começar, não temos nenhum interesse em apoiar qualquer candidato nas eleições do Chefe do Executivo, porque pensamos que está longe de ser democrática e não estamos interessados neste tipo de eleições em circuito reduzido”, argumenta.
“Os candidatos serão todos pró-governamentais e não tem qualquer efeito positivo no desenvolvimento do sistema político de Hong Kong”, diz. “Não estamos interessados nas eleições para o próximo Chefe do Executivo de Macau, mas gostaríamos de ver a RAEM a tornar-se mais democrática e a ter, como em Hong Kong, um calendário para o desenvolvimento do sistema político.” O presidente do Partido Democrata não encontra “qualquer razão para que não haja uma comunicação aberta com os nossos colegas de Macau sobre o desenvolvimento futuro da região”.

Zangados com Stanley

Segundo explicou Emily Lau ao PONTO FINAL, há sete deputados ao Legco do Partido Democrata que vão embarcar rumo a Macau no próximo domingo. “As inscrições estão a aumentar, há um número grande de outros membros do partido, incluindo aqueles a quem não foi permitida a entrada nos últimos meses”, frisou a vice-presidente do HKDP.

“Se continuarem a fazer-nos isto, talvez devêssemos proibir a entrada em Hong Kong de membros do Governo, incluindo Edmund Ho. Se nos obrigarem a fazer isso será muito lamentável.”
“Se continuarem a fazer-nos isto, talvez devêssemos proibir a entrada em Hong Kong de membros do Governo, incluindo Edmund Ho. Se nos obrigarem a fazer isso será muito lamentável.”

“Convidei um deputado do DAB [partido pró-Pequim], mas ele recusou”, diz, com ironia. O mesmo aconteceu com o secretário para a Segurança, Ambrose So, a quem foi lançado o repto. “Estamos a falar da liberdade de movimento, pelo que toda a gente que se quiser juntar a nós será bem-vinda.”
A comitiva pela “Livre Entrada em Macau” não viajará a bordo da Shun Tak. Estão zangados com Stanley Ho e, por isso, não vão comprar os bilhetes à sua filha Pansy. O “hongkonger” magnata do jogo fez comentários que caíram mal entre os visados pelas políticas das autoridades da RAEM, uma vez que achou bem que Macau deixasse os “arruaceiros” de fora.
Lau não consegue ainda prever quantos deputados virão no mesmo barco, mas sabe que os democratas não estão sós nesta causa – o tom da unanimidade das intervenções no debate na passada semana no Legco assim o demonstra.
“Muitos deputados, até da ala pró-Pequim, ficaram estupefactos com a decisão das autoridades de Macau. Entendem que esta decisão não é, de modo algum, aceitável”, diz.
Emily Lau remata deixando mais uma mensagem ao Chefe do Executivo da RAEM. No passado, recorda a deputada, “Edmund Ho referiu-se a ele próprio e a Macau como o irmão mais novo de Hong Kong, especialmente quando se falou se deveríamos autorizar casinos aqui”. Na altura, “disse que Hong Kong deveria cuidar do irmão mais novo”. O pedido é feito, agora, no sentido inverso: “Peço a Edmund Ho que cuide das irmãs e dos irmãos, mais velhos ou mais novos.”

Isabel Castro em Hong Kong, in Ponto Final

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