Recusar vir a Macau por medo de não entrar

Eric Sautede diz que interdição a académicos de Hong Kong não é de agora

O professor de Direito da Universidade de Hong Kong foi o caso mais mediático, mas há outros académicos que bateram com o nariz na porta quando chegaram ao Terminal Marítimo. A política das autoridades da RAEM deve ser clarificada rapidamente, defende Eric Sautede. O politólogo explicou ao PONTO FINAL os constrangimentos que se sentem no mundo académico.

Isabel Castro

O caso saltou para os jornais quando um grupo de deputados da ala democrata de Hong Kong pretendia, no final de Dezembro passado, juntar-se a pouco mais de meia dúzia de dezenas de manifestantes num protesto contra a regulamentação do Artigo 23º.
Entretanto, a história caiu (mais ou menos) no esquecimento, até que a proibição de entrada de um fotojornalista do South China Morning Post fez reavivar o tema e o episódio com o professor de Direito Johannes Chan causou a indignação entre aqueles que não tinham prestado grande importância à questão.
Mas a verdade é que, explica o professor do Instituto Inter-Universitário de Macau (IIUM) Eric Sautede, estas interdições à entrada de Macau não são de hoje. O politólogo, que desempenha um papel muito activo na organização de conferências e palestras na instituição onde dá aulas, tentou convidar uma académica de Hong Kong para participar numa actividade do IIUM agendada para o final deste mês. Mas não conseguiu.
A docente em causa, da área da Educação, recusou vir a Macau porque, há alguns meses, “não conseguiu entrar para uma conferência organizada pelo Banco Mundial”. Segundo Sautede, as autoridades não deram a esta académica, natural da China mas com residência fixada em Hong Kong há já alguns anos, qualquer razão para a recusa.
“Não pertence a nenhum partido. Disse-me que ‘Não me quero arriscar a que me recusem a entrada na fronteira, porque isso aconteceu-me há alguns meses’. Perguntei-lhe se teve algum envolvimento político, por exemplo no movimento de 4 de Junho, mas ela garantiu que não.”
O politólogo do IIUM conta que o que tem vindo a acontecer com alguns residentes de Hong Kong tem “um efeito directo” no meio académico de Macau. Criam-se “constrangimentos”. Para quem está cá e organiza este tipo de iniciativas de índole académico, estas situações “são constrangedoras”, mais a mais porque, realça Sautede, “desconhecem-se os critérios das autoridades para estas acções”.
Macau depende em muito dos académicos da região vizinha tanto para a organização de conferências como para que sejam dadas aulas em matérias específicas. Era precisamente para dar uma palestra que Johannes Chan vinha a Macau.
Se Eric Sautede diz ter dificuldades em perceber o que se está a passar, neste caso ainda mais. Além do académico ter uma grande reputação, sublinha o professor do IIUM que “até já tinha bilhete comprado para ir embora imediatamente a seguir à palestra”. A pergunta impõe-se: “Como é que ia participar em mais alguma coisa?” Lamenta ainda que a Universidade de Macau não tenha assumido uma postura mais incisiva sobre o que se passou com o seu convidado.

Pequim resolve

Para o politólogo, a solução terá de partir de Pequim, até porque “o Gabinete de Ligação está a tentar resolver o problema”. “Apesar de os dois chefes do Executivo estarem a conversar sobre o assunto, acabará por ser resolvido pelo Governo Central”, sentencia.
O que quer que esteja por trás desta atitude das autoridades policiais da RAEM, Sautede considera ser “uma reacção exagerada e sem sentido”. E que leva a todo o tipo de extrapolações. “Não consigo perceber a razão, a não ser que tenham sentido medo de que o Artigo 23º mobilizasse pessoas de Hong Kong e influenciasse pessoas de fora. Mas isso demonstraria que não tinham confiança neles próprios, o que também é muito estranho, porque pelo que vimos a lei passou sem problemas.”
O docente do IIUM conhece bem a China e põe de lado as análises que indicam o temor de agitação social como causa para estas acções. “Na China, quando há confusões sociais, nunca é por causa de questões relacionadas com a segurança nacional ou com democracia, estão sempre ligadas a aspectos sociais e locais. Tenho mesmo dificuldade em entender o que se está a passar”, reiterou.
Lamenta ainda que as pessoas que foram visadas sejam vistas como “influências estrangeiras”, o que “é estranho também porque, se o meu entendimento do princípio ‘um país, dois sistemas’ está correcto, Macau e Hong Kong estão no mesmo país”.
Pelos contornos que o caso está assumir – Sautede conta que é assunto muito comentado entre académicos que estão fora de Macau – e a bem de um sistema que se rege pela lei, o académico entende que há que explicar “quais são as regras do jogo”.
O docente deixou ainda um comentário às declarações de Stanley Ho, que catalogou estes visitantes indesejáveis como “arruaceiros”. “Isto reflecte a forma como muitas pessoas pensam em Macau”, frisou.

A teoria do Apple Daily

Ontem, a edição do Apple Daily (AD) deu grande destaque ao assunto, tendo avançado com uma teoria para explicar o “mistério” das proibições de entrada na RAEM. O jornal de Hong Kong relaciona o que tem vindo a acontecer com a “guerra” das eleições para o Chefe do Executivo.
O AD cita um democrata que, por sua vez, cita uma fonte da China Continental, para dizer que as proibições recentes têm origem “em apoiantes de Chui Sai On, secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, que receiam que a ‘infiltração’ de forças democratas em Macau possam incentivar exigências de democracia e de medidas de combate à corrupção”.
Segundo o mesmo jornal, se a população da RAEM optasse por estas reivindicações, tal “aumentaria as possibilidade de Chui perder as eleições para o procurador da RAEM, Ho Chio Meng, que tem uma imagem melhor enquanto alguém que combate a corrupção”.

Isabel Castro, in Ponto Final

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