O jogo do silêncio

Não terão sido muitos os momentos da história conjunta de Macau e de Hong Kong como aquele que agora se vive. O debate que ontem aconteceu ao princípio da noite no Conselho Legislativo dos nossos vizinhos do lado ficou marcado, desde logo, por um facto: dificilmente terá havido outra sessão parlamentar em que Macau, o seu Chefe do Executivo e demais governantes vieram à baila por tão tristes razões. Edmund Ho foi mais criticado ontem durante hora e meia de plenário do que num ano de debates da Assembleia Legislativa local.
A população da RAEM também não saiu ilesa: pelo que ontem foi dito no Legco, Hong Kong olha para Macau como o local onde se passou da extrema permissividade para a intolerância máxima, e entende que quem cá vive tem razões para se sentir envergonhado com os problemas colocados a residentes da RAEHK no acesso ao território. Macau é a cidade que finge ser internacional mas que adopta medidas “incompreensíveis” e nem se dá ao trabalho de as explicar; para alguns, é mesmo o “irmão mais novo” a quem Hong Kong deveria dar alguns conselhos.
A esta altura do campeonato, já se percebeu que o grupo de deputados indignados com as interdições na entrada (são pelo menos 23 num total de 60) não vai deixar o assunto cair no esquecimento. E embora o secretário para a Segurança da RAEHK se tenha escudado na autonomia da RAEM para explicar que pouco ou nada pode fazer, é visível o desconforto governamental com a situação que há muito ultrapassou os activistas de cabelos compridos, para passar a afectar também académicos, jornalistas e deputados de maneiras mais discretas.
Diz a sabedoria popular que “quem não deve não teme”. Porque, por certo, o Governo de Macau nada deverá nem temerá nas decisões tomadas em relação à matéria, talvez tenha chegado a hora de prestar um esclarecimento público sobre o que se passa com este grupo de indesejáveis residentes de Hong Kong. E talvez assim se comece a cumprir um desígnio anunciado por Edmund Ho aquando das Linhas de Acção Governativa para 2008 – uma maior comunicação com a população, em nome da transparência. Por ora, pouco ou nada se viu. O jogo continua a ser o do silêncio.

Isabel Castro, in Ponto Final

Advertisements

About this entry