Singularidades de um casting em Macau

Casa de Portugal escolhe actores para série televisiva “Lebab”


Quem alguma vez sonhou em ser actor tem este fim-de-semana oportunidade de poder ser escolhido para a série televisiva “Lebab”, uma produção da Casa de Portugal em Macau. O PONTO FINAL falou com Laura Nyögéri, a responsável pela escolha dos protagonistas e figurantes entre os 10 e os 19 anos. Aqui ficam os argumentos para alinhar na experiência.

Foto: Nuno Cortez Pinto

Ao todo serão doze os escolhidos. Mas isto não significa que os restantes não tenham um papel a desempenhar. Poderão ser figurantes numa sala de aula, numa festa, em qualquer outra situação filmada para “Lebab”. Decorre amanhã e domingo o casting para a série televisiva da iniciativa da Casa de Portugal em Macau (CPM).
No sábado, o dia é dedicado exclusivamente aos mais jovens e entra em acção Laura Nyögéri, a directora de casting do projecto. Vinda de Portugal para participar nesta empreitada “pioneira” da CPM, a responsável pela escolha dos actores está há um mês em Macau a sentir as especificidades da terra.
Já descobriu que vai ser um trabalho diferente: para ela e para quem amanhã for à Escola Portuguesa participar na selecção. “Tinha conhecimento da série e achei bastante interessante porque sabia que aqui não há um desenvolvimento de audiovisual muito avançado.” Recebeu o projecto em Portugal, veio de férias e decidiu aceitar o repto.
Uma das razões é o facto de estar relacionado com crianças, área em que Laura Nyögéri tem vindo a trabalhar desde que entrou no mundo da produção audiovisual. “Está a ser uma experiência muito boa. É criar um projecto de raiz. Não temos uma equipa muito grande, estamos a crescer em termos de meios humanos, técnicos e financeiros. Foi partir do zero, e isso dá mais luta”, constatou ao PONTO FINAL.
As diferenças com o meio onde tem estado a trabalhar são óbvias: “Em Portugal é tudo muito mais fácil, se quisermos fazer um casting, contactamos as agências da área, indicamos o perfil que queremos e são-nos encaminhados os possíveis candidatos”.
Por estas bandas agências de casting é coisa que não existe no universo de língua portuguesa. Por isso, tem que ser feito um esforço adicional, “tentar chegar às pessoas de diversas formas e adaptarmo-nos a este meio que é completamente diferente”.

Miúdos diferentes

A diferença de Macau encontra-se também nas crianças e adolescentes portugueses que aqui residem. Laura Nyögéri já percebeu que os miúdos aqui crescem de forma distinta e estão num meio em muitos aspectos diverso do português de Portugal. Este facto aguça-lhe a curiosidade: “Vai ser engraçado no dia do casting sentir que aquelas crianças são completamente diferentes daquelas a que estou habituada em Portugal. Acredito que sejam bem diferentes.”
Além da diversidade em termos culturais e sociais, os actores e elenco adicional (vulgo figurantes) que a directora de casting vai escolher têm uma peculiaridade em relação ao que está habituada: é que, em Portugal, há crianças e adolescentes que são autênticos profissionais da área.
“Há crianças que começam com meses, um ano, dois anos, a irem aos castings. É extremamente complicado. Começam cedo, são motivadas pelos pais, e continuam no meio. Por vezes, percebemos que são bons artistas e mais tarde vamos chamá-los porque já tivemos esse contacto com eles”, explica.
Como em Macau não existirão crianças habituadas às câmaras e à maquilhagem, a experiência ganha o dobro do interesse. “Um dos nossos principais objectivos é criar e desenvolver competências na área do casting de televisão e cinema junto deste público, das crianças e jovens de Macau. Se calhar muitos deles nunca tiveram contacto com esta realidade e não sabem o que é, o que têm de fazer e o que pode acontecer. Um dos objectivos é mantê-los próximos deste mundo.”

Descobrir artistas

Laura Nyögéri revela que, para escolher actores, não são necessários mais do que “pequenos exercícios para identificarmos potenciais artistas”. Já foi à Escola Portuguesa, teve contacto com algumas crianças e professores, conheceu “um bocadinho o meio deles”. E embora o tempo de permanência em Macau não seja muito, já bastou para ter que reformular os planos de trabalho que inicialmente delineou.
“Existem várias técnicas para chegar às crianças e vou tentar tornar isto mais uma brincadeira do que uma coisa mais formal. Em Portugal, seria tudo mais metódico. Aqui não.”
Trocando por miúdos, quer isto dizer que a directora de casting se vai juntar aos candidatos no processo de selecção. “Vou transformar aquilo numa brincadeira, num processo de aprendizagem. Eles vão ao casting mas vão estar a aprender, através de jogos de representação que vou fazer com eles”, refere.
“Em vez de me colocar apenas como directora de casting e de avaliadora, vou juntar-me a eles e representar, para conseguir chegar mais rapidamente e conseguir que o resultado seja mais eficaz.”
O casting vai implicar jogos de representação, o que faz Laura Nyögéri garantir que será uma boa experiência também para os que não forem seleccionados: “Além de saírem de lá com uma mais-valia em termos de aprendizagem deste mundo, vamos também seleccionar muitos para figuração, ou seja, para o elenco adicional”. Assim sendo, quem não estiver entre o rol de actores poderá na mesma ter uma oportunidade de participar em “Lebab”, até porque “o objectivo é colocar o maior número de pessoas na série”.
Os candidatos a actores devem ter entre 10 e 19 anos. Não há um perfil definido à partida. Laura Nyögéri sabe o que quer mas só vai saber quem quer quando aparecerem os interessados.
“Lebab” é uma série sobre a diversidade e é isso que se pretende no casting. “O que procuro são jovens completamente diferentes em termos sociais e culturais, com origens mistas. A única ligação é terem, de alguma forma, origem portuguesa”, diz. “Quero crianças completamente diferentes umas das outras. Não estou à procura de um perfil exacto.”

Dos Morangos à Rapariga Loira

Os miúdos que forem amanhã à Escola Portuguesa, a partir das 9h, poderão também ficar a conhecer um pouco mais sobre o que é o mundo dos audiovisuais. “Há uma equipa muito grande por trás de tudo isto. Provavelmente muita gente não tem consciência do trabalho que exige, da pré-produção que existe, do trabalho de pesquisa, desde o guarda-roupa à maquilhagem, a casting de actores, de elenco adicional. Tudo envolve um aparato muito grande”, sintetiza.
Laura Nyögéri tirou o curso de Publicidade e Marketing, na vertente de Publicidade. Cedo percebeu que lhe interessava “tudo o que fosse mais relacionado com área de audiovisuais”. Uma professora que, na altura, era directora de programas da RTP, reparou nisso e, ainda durante a faculdade, fez com um grupo de colegas um trabalho para a RTP. Um deles – António Faria – integra a equipa de realização de “Lebab”.
A experiência no seu primeiro trabalho fez com que tivesse vontade de continuar no meio. “Estava a terminar a faculdade quando entrei nos ‘Morangos com Açúcar’ como responsável de elenco adicional, escolhia a figuração e as personagens com participações específicas fora do elenco principal”.
A partir de então, trabalhou sempre com a mesma equipa e passou por várias séries televisivas. “Descobri que não queria ir para uma agência de publicidade, estar sentada em frente a um computador, mas sim fazer produção em televisão.” Entre as séries – a “Liberdade XXI” consta da lista – apareceram trabalhos na área da publicidade e também um filme francês.
O último projecto em que participou antes de vir para Macau merece destaque no currículo: participou em “Singularidades de Uma Rapariga Loira”, do realizador Manoel de Oliveira, uma experiência profissional que diz ter sido extremamente positiva.
Ainda assim, a preferência vai para o casting em ficção em televisão. “Tive contacto com várias realidades da produção em audiovisual – cinema, publicidade e ficção em televisão – e são todas são muito diferentes, mas sem dúvida que gostei mais de trabalhar em televisão.” A razão é simples: o projecto não é tão efémero como o anúncio publicitário nem tão metódico como o cinema. Exige mais capacidade de improviso e desenvolve-se a um ritmo diferente.
Baseada no livro “Terra de Lebab”, de Fernando Sales Lopes, a série televisiva de dez episódios é realizada por António Faria, Joana Couto e Tomé Quadros.
A história percorre as festividades de Macau e gira em torno das heranças culturais das suas diversas comunidades, aqui “representadas” por um grupo de doze adolescentes, explica a Casa de Portugal.

Isabel Castro, in Ponto Final
Foto: Nuno Cortez Pinto

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