“Macau está a ficar pior do que a China”

Deputados de Hong Kong protestam contra restrições na fronteira da RAEM


É assim que pensam os deputados de Hong Kong impedidos de entrar no território nos últimos tempos. Os membros do Legco barrados pelos Serviços de Imigração protestaram ontem contra a situação e enviaram uma carta a Edmund Ho, exigindo-lhe explicações sobre o assunto. O Governo opta pelo silêncio.

Um grupo de deputados do Democratic Party of Hong Kong (DPHK) protestou ontem contra a interdição da entrada de membros do Conselho Legislativo (Legco, na sigla inglesa) em Macau.
Os manifestantes aproveitaram a reunião entre as autoridades das duas regiões administrativas especiais e da província de Guangdong, que aconteceu ontem na antiga colónia britânica, para entregarem aos representantes da RAEM uma carta endereçada ao Chefe do Executivo.
Na missiva, a que o PONTO FINAL teve acesso, o presidente do DPHK, Albert Ho Chun-yan, começa por dizer que “nos últimos anos têm sido cada vez mais os residentes de Hong Kong – incluindo membros do Legco, políticos e elementos de organizações não-governamentais – que viram a entrada recusada na fronteira de Macau sem que lhes fossem explicadas as razões concretas”.
Para o DPHK, esta atitude das autoridades de Macau “não faz qualquer sentido”. Realçando que as duas regiões administrativas pertencem ao mesmo país, não obstante terem sistemas jurídicos diferentes, Albert Ho vinca ainda na carta de protesto que, no que diz respeito aos deputados e membros do seu partido, “não são pessoas radicais e não representam qualquer perigo para Macau”.
O deputado à Legco lamenta que, com o que tem vindo a acontecer, “a liberdade de expressão e de movimento esteja a ser restringida, o que não é aceitável numa sociedade democrática”.
Alberto Ho remata a missiva apelando a Edmund Ho que reveja as práticas no que diz respeito à entrada de residentes de Hong Kong em Macau. “O que está a acontecer fere a dignidade das pessoas”, alerta.

Ho não era assim

Emily Lau Wai-hing, líder da Hong Kong Frontier Party, considera “muito chocante” o que está a acontecer à porta de Macau. “Estou muito chocada. Estamos todos muito zangados, não percebemos porque é que o Governo de Macau nos fez isto”, afirmou a deputada ao PONTO FINAL.
“Esperamos que acabem com a proibição de entrada imediatamente. Somos pessoas muito pacíficas”, sublinhou ainda Emily Lau que, conhecida pelo seu discurso sem rodeios, não hesita em fazer uma comparação que em nada favorece Macau.
Diz Lau que “o que está a acontecer agora em Macau é pior do que na China Continental”. E explica porquê: “Algumas pessoas [das que têm sido barradas à entrada de Macau] ainda conseguem ir à China. Eu não, mas costumava ir a Macau.”
A antiga jornalista – que se tornou conhecida pelo seu trabalho na Far Eastern Economic Review – acrescenta que se encontrou com Edmund Ho “várias vezes”. “Não consigo perceber porque é que decidiu impedir a minha entrada e a de outras pessoas.”

A dupla lista negra

Emily Lau foi uma deputadas que deu meia volta na fronteira de Macau no passado dia 20 de Dezembro, quando vinha ao território participar na manifestação contra a regulamentação do Artigo 23º da Lei Básica. Leung Kwok-hung, o deputado conhecido como Long Hair, foi outro dos visados.
“A restrição na minha visita a Macau começou em 1999, antes da transferência de administração de Macau. Julgo que, na altura, o Governo de Macau teve algum tipo de pressão do Governo de Pequim”, explicou a este jornal.
Leung até consegue compreender o que se passou à época. “Julgo que o Governo estava preocupado com manifestações na cerimónia, não queriam que os líderes chineses fossem incomodados por protestos, pelo que teriam uma espécie de lista negra.” Só que, entretanto, acusa Long Hair, “Edmund Ho já fez a sua própria lista negra, pelo que se trata de uma dupla lista negra”.
Para o deputado da League of Social Democrats, o que tem vindo a acontecer só pode ser catalogado como “um abuso total dos direitos humanos”. “Tenho o direito de viajar para Macau ou qualquer outro sítio. Isto também não é nada bom para as relações entre Hong Kong e Macau.”

Debate dentro de dias

Leung Kwok-hung considera “escandaloso” o comportamento das autoridades de Macau mas aponta também o dedo ao Governo de Hong Kong. Segundo explicou ao PONTO FINAL, o grupo de deputados visados pelos Serviços de Imigração da RAEM pediu ajuda ao Executivo de Donald Tsang, que se “limitou a dizer que apoia e percebe o Governo de Macau”.
“Não percebo que tipo de apoio e de compreensão pretenderam enfatizar. Em Macau, tiraram-nos os bilhetes de identidade, que depois enviaram para o Serviço de Imigração de Hong Kong. Queremos que esta ‘cooperação’ seja investigada.”
Por isso, o assunto vai ser levado à comissão de segurança da Legco, que se deverá reunir no final deste mês ou no início do próximo. “Vamos apresentar a questão e pedir que as autoridades de Hong Kong se pronunciem sobre o assunto. Vamos convidar representantes do Governo da RAEHK para virem à reunião.”
A rematar, Long Hair diz que “é uma desgraça para o Governo de Macau desrespeitar os direitos fundamentais desta maneira”. Para o activista político, “tornou-se uma medida permanente e Edmund Ho deve-nos uma explicação.”
O argumento do Executivo da RAEM está longe de o sossegar. “Sabemos todos que há uma lei mas estamos a falar de razoabilidade. Como é que eu posso ser um perigo para Macau? E os outros deputados que também são impedidos de entrar?”
São perguntas às quais o Governo de Macau ainda não respondeu directamente. No final da semana passada, o secretário para a Segurança limitou-se a dizer que os Serviços de Imigração cumpriram a lei.
O PONTO FINAL contactou no início desta semana o Gabinete de Cheong Kuok Va no sentido de obter uma reacção sobre a questão. Ontem, após novo contacto, fomos informados de que não há explicações adicionais a fornecer sobre a questão.

Isabel Castro, in Ponto Final

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