A preocupação de Hong Kong e a resposta vaga de Macau

Caso do repórter fotográfico do South China Morning Post já tem repercussões políticas

Está a dar muito que falar a história do fotógrafo de Hong Kong impedido de entrar em Macau na passada quarta-feira. Os deputados que já passaram pelo mesmo estão indignados. O secretário chefe da RAEHK disse estar preocupado. Francis Tam falou sobre o assunto mas, na realidade, nada disse.

“Muito preocupado”. É assim que o secretário chefe de Hong Kong está em relação ao que aconteceu ao repórter fotográfico do South China Morning Post (SCMP) que não foi autorizado a entrar em Macau na passada quarta-feira, quando se deslocava ao território para fazer a cobertura do segundo julgamento de Ao Man Long.
Ontem, segundo a edição online do SCMP, Henry Tang Ying-yen disse que já entrou em contacto com as autoridades governamentais da RAEM para expressar a sua preocupação e ficar a saber quais as razões que estiveram na origem do impedimento da entrada de Felix Wong Chi-keung em Macau.
“Espero que possam acompanhar o assunto rapidamente”, disse o número dois do Governo da antiga colónia britânica.
Felix Wong Chi-keung não conseguiu entrar em Macau em trabalho não obstante ter obtido a necessária acreditação junto do Gabinete de Comunicação Social (GCS) para fazer o acompanhamento jornalístico do julgamento que está a decorrer no Tribunal de Última Instância, segundo garante a sua entidade patronal.
Henry Tang descreveu o episódio como um problema “entre dois irmãos numa família”. Já Francis Tam, que esteve ontem na RAEHK para o encontro tripartido da região do Delta, sublinhou que Macau faz uma “gestão adequada dos trabalhos de imigração”. Mas não se referiu directamente ao caso do jornalista do SCMP ou aos dos deputados do Conselho Legislativo da RAEHK que têm batido com o nariz na porta quando tentam entrar em Macau.

Tam disse o quê?

A forma como o Gabinete de Comunicação Social trata o assunto é, no mínimo, curiosa. Numa nota à imprensa, informa o GCS que “o secretário para a Economia e Finanças, Francis Tam, afirmou que todas as pessoas são bem-vindas a Macau para turismo e oportunidades de negócio” e que “os Serviços de Migração de Macau, à semelhança de outras regiões, procedem a uma gestão adequada dos trabalhos de Migração”.
O GCS informa que Francis Tam estava à frente da delegação que foi a Hong Kong para a reunião tripartida e que as suas afirmações foram proferidas depois de ter sido interpelado pela comunicação social.
Mas, curiosamente, não explica a que se referiam os jornalistas quando lhe colocaram a questão. Ou seja, o Gabinete de Comunicação Social optou por não fazer referência ao caso do fotógrafo do SCMP ou às histórias semelhantes que se têm vindo a observar.
Porém, e ainda segundo a mesma nota, o secretário afirmou que “a gestão dos Serviços de Migração de Macau foi sempre desempenhada de acordo com a Lei de Bases da Segurança Interna”. O responsável frisou que “todas as pessoas, de diferentes regiões e sectores, são bem-vindas a Macau para turismo, visita a familiares, actividades profissionais e oportunidades de negócio”.
Acrescentou o secretário que “os Serviços de Migração, à semelhança de entidades congéneres de outros países, agem de acordo com casos concretos e disposições da Lei, sempre com o objectivo de desempenhar bem os seus trabalhos”, salientando igualmente que “as decisões finais são tomadas após análise cuidada e ponderada da situação em questão”. Impõe-se perguntar a que “decisões finais” e a que “situação em questão” se referia Tam.

Não é nada connosco

A edição de ontem do South China Morning Post puxou o assunto para a primeira página e dedicou vários artigos ao caso do fotógrafo barrado na fronteira. “O SCMP está extremamente preocupado com o que entende ser uma séria violação da liberdade de imprensa bem como a liberdade de movimento do Sr. Wong”, vincou, em forma de protesto verbal, o editor do jornal, C.K. Lau.
O jornal informa que escreveu ao secretário para a Segurança, Cheong Kuoc Va, e ao director do Gabinete de Comunicação Social, Vitor Chan. O matutino de Hong Kong exige um pedido de desculpas da autoridades da RAEM e que o fotógrafo tenha assegurada a entrada em Macau no futuro.
O PONTO FINAL quis saber o que tem o secretário para a Segurança a dizer sobre o assunto, uma vez que foi interpelado. Mas, como é hábito em Macau, chegar à fala com os detentores das pastas governamentais é tarefa impossível.
Na escala hierárquica não conseguimos passar do responsável pelas Relações Públicas, que afirmou que “não costumamos comentar nenhum caso individual, o comandante da polícia é que tem poder para comentar”. Recorde-se que o corpo da PSP depende da tutela de Cheong Kuok Va.
Até à hora de fecho desta edição, do GCS também não veio nenhuma reacção, não obstante os esforços desenvolvidos pelo PONTO FINAL para entrar em contacto com alguém com responsabilidade dentro do gabinete dependente do Chefe do Executivo.

AIPIM reage

“Não é ridículo? Isto não é só uma questão com os políticos, agora até os jornalistas são impedidos de entrar”, comentou a deputada de Hong Emily Lau a este jornal. Se os ânimos na região vizinha já estavam exaltados por causa dos deputados que constarão da “lista negra” dos Serviços de Imigração da RAEM, o episódio com o repórter fotográfico só veio azedar a situação.
A Hong Kong Press Photographers Association declarou ao SCMP que “as autoridades actuam sem qualquer lógica e sem transparência”. Já a Associação de Jornalistas de Hong Kong, presidida por Camões Tam Chi-Keung, considera o incidente “intolerável”. “Não só desrespeita a liberdade de imprensa de Hong Kong, mas também a de Macau”, sublinhou ao mesmo matutino.
A única posição assumida publicamente na RAEM sobre o caso é da Associação de Imprensa em Língua Portuguesa e Inglesa de Macau (AIPIM). Em comunicado, a direcção da AIPIM manifesta “o seu mais profundo repúdio pela interdição da entrada em Macau do repórter fotográfico do jornal South China Morning Post”.
A mesma associação frisa que “atitudes injustificáveis como esta dão uma má imagem internacional de Macau, que até ao momento tem vivido sob uma apreciável liberdade de expressão e imprensa”.
A AIPIM, presidida pelo jornalista Paulo Azevedo, deixa ainda um apelo às autoridades: “Justifiquem publicamente os motivos que estiveram na origem de semelhante proibição para um esclarecimento completo deste caso.”
Em declarações ao PONTO FINAL enquanto jornalista, Azevedo vincou que “esta situação é absolutamente inadmissível e inaceitável e, se não forem apresentadas explicações credíveis, é um claro cercear da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa”.

Isabel Castro, in Ponto Final

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