“Ainda não sou um bom político”

Lionel Leong não pensa candidatar-se a Chefe do Executivo mas diz-se disponível para servir Macau

Os políticos “sofisticados” não podem ter o coração ao pé da boca e Lionel Leong Vai Tac tem. Por considerar que é um homem “ligeiramente fora do enquadramento”, entende que ainda não reúne as condições necessárias para assumir um cargo de tão grande responsabilidade. Mas não vira as costas a desafios e, promete, desempenhará as funções em que puder ser útil. Ao PONTO FINAL, traça o perfil do líder de que Macau precisa e faz o balanço da sua experiência enquanto delegado à Assembleia Popular Nacional.

toda a gente sabe do que gosto e do que não."

"Para se ser um político muito sofisticado, falar com o coração pode ser muito perigoso. Sou uma pessoa muito directa: toda a gente sabe do que gosto e do que não."

– Foi eleito para a Assembleia Popular Nacional (APN) há pouco mais de um ano. Como é que tem sido a experiência?
Lionel Leong Vai Tac – Óptima. É também uma grande oportunidade para aprender e para ficar a perceber o sofisticado e desenvolvido sistema do país. Antes de assumir esta responsabilidade, era como um miúdo de um jardim de infância. Não tinha a plena consciência dos diferentes aspectos do nosso país. Mas com esta oportunidade, e logo naqueles dias em que participei pela primeira vez no congresso nacional, pude observar que o sistema, os procedimentos e o protocolo são muito precisos e adequados para um país como este. Todas as reuniões que tivemos, para discutir assuntos como o relatório do primeiro-ministro ou os procedimentos das eleições, são feitas com muita seriedade. Mas o que mais me impressiona é a capacidade de resposta às nossas propostas ou interpelações.
– Sente que existe uma resposta efectiva às opiniões que manifesta?
L.L.V.T. – Dou-lhe um exemplo: três dias depois de enviar uma sugestão sobre a forma científica de se definirem políticas – defendi que não basta haver soluções científicas, é necessário explicá-las à população e educá-las nesse sentido, para que estas as apoiem – telefonaram-me a perguntar se queriam que fosse enviada a algum departamento específico. Eu disse que não, que não era um caso em concreto, e sim que deveria ser para o conhecimento geral de quem trabalha no Governo. Podiam ter ficado por ali e dar o assunto por arrumado, mas não. Enviaram a sugestão para todos os departamentos governamentais, a todos os níveis. Fiquei realmente impressionado com isto.
– E surpreendido?
L.L.V.T. – Claro! Resposta rápida e não apenas durante o tempo em que se participa no congresso. Respondem por escrito às sugestões e por vezes as respostas são mais compridas do que as interpelações – vê-se que estudaram a questão, com muitos pormenores, e são áreas específicas, como a diversificação dos sistemas de energia, que foi o tema de uma das minhas sugestões. Não enviam uma resposta padrão a agradecer. A resposta é muito positiva. Antes de ser delegado à APN não sabia que o nosso país era tão sofisticado neste aspecto. Respondem a milhares de sugestões por ano, têm equipas competentes para o fazer e a resposta é dada por quem tem competências, a nível provincial ou nacional.
– Depois deste ano de experiência, e atendendo a que foi o grande vencedor das eleições em Macau para a APN, vê-se a si próprio como um político diferente do que era?
L.L.V.T. – Estou diferente, sim – mais maduro, e isto porque sei que sou um bom aluno, aprendo rápido. E aprendo muitas coisas, não só aquelas que são boas para mim, mas também tudo o que seja benéfico para a comunidade. O que faz com que esteja diferente é que, antes, achava que havia coisas que eram apenas ilusões e slogans na política, mas agora sei que quando se trabalha com seriedade e a pensar no benefício das pessoas, haverá uma resposta positiva, pode-se fazer com que as coisas aconteçam.
– Que retrato que faz de si próprio enquanto político?
L.L.V.T. – Não quero utilizar a palavra ‘ingénuo’, mas continuo a ser um rapaz demasiado cheio de paixões. Ainda acredito e adoro a sensação de ver as coisas a acontecer, as soluções a aparecer. Incomoda-me assistir a algo mau para a comunidade, que todos os esforços sejam feitos e que, mesmo assim, o problema não se resolva. Mas depois deste ano de experiência, aprendi que, se não se pode resolver o problema este ano, devemos insistir e acreditar que para o próximo será possível.
– Quer então dizer que aprendeu a ter mais paciência?
L.L.V.T. – Mais paciência, definitivamente, mas não menos paixão. Continuo com o meu coração a bater com força e a ter o sangue quente. O meu fogo continua a arder porque este ano de experiência deu-me uma motivação muito grande para trabalhar. Ter tido a maior votação é, claro está, uma grande pressão.
– Mas é um voto de confiança, tendo em conta que pertence a uma nova geração de políticos.
L.L.V.T. – É um voto de confiança e, por ser novo, sei que tenho que fazer mais, que trabalhar mais arduamente de modo a dar uma resposta positiva à bênção da comissão eleitoral e, muito importante, às necessidade da população de Macau. É muito diferente do que era antes. Às vezes pensava que, tendo já dado o meu melhor, não podia fazer mais nada para resolver os problemas. Agora penso que não basta darmos o nosso melhor – se o meu melhor não for o suficiente, tenho então que melhorar as minhas capacidades.

"Macau precisa de um lider politico que perceba as necessidades vulgares e simples das pessoas."

"Macau precisa de um líder político que perceba as necessidades vulgares e simples das pessoas."

– Quando Xi Jiping esteve em Macau, o Ou Mun falou de si como um dos possíveis candidatos a Chefe do Executivo, uma hipótese de que se começou a falar quando venceu as eleições para a APN…
L.L.V.T. – Esteve alguém a contar o tempo do nosso aperto de mão? (risos)
– Disseram que parecia o anfitrião da recepção. Considera a possibilidade de uma candidatura a Chefe do Executivo?
L.L.V.T. – Assumo todas as responsabilidades para poder ser útil a Macau mas, para lhe dizer a verdade, nunca tive em mente candidatar-me a Chefe do Executivo. Sei que ainda tenho que trabalhar com muito afinco nas minhas actuais funções, no Conselho Executivo e na APN. Como disse, estarei disponível para aquilo que Macau precisar de mim, mas não necessariamente na Administração, pode ser em qualquer função. Eu sou de Macau – nasci em Macau, fui educado em Macau e o meu coração bate por Macau. Só quer ver o melhor por Macau, é isso! Há muitos candidatos fortes a Chefe do Executivo.
– Mas nenhum deles parece ser perfeito.
L.L.V.T. – Ninguém é perfeito.
– Edmund Ho era perfeito, na altura.
L.L.V.T. – Na altura sim, mas também teve que aprender durante os seus mandatos.
– Mas era um candidato natural e agora não há nenhum.
L.L.V.T. – Isso é verdade. Todos os candidatos têm vantagens e desvantagens, não há dúvida. Eu não sou um bom político, com toda a sinceridade.
– Não é ou ainda não é?
L.L.V.T. – Por enquanto, acho que ainda não sou um bom político. Sou demasiado apaixonado. Quando vejo algo que não é bom, sou muito ansioso, muito insistente. Quando vejo algo bom, não consigo esconder a minha cara sorridente. Para se ser um político muito sofisticado, falar com o coração pode ser muito perigoso. Sou uma pessoa muito directa: toda a gente sabe do que gosto e do que não gosto, se quero ir atrás disto ou não. Estudei no Canadá durante a escola secundária e a universidade, tenho um estilo mais ocidental, a minha cara diz tudo. As pessoas dizem que estou sempre a brincar com toda a gente. Adoro comunicar com diferentes tipos de pessoas.
– Mas não acha que essa deve ser uma característica dos políticos? Porque é que têm que estar sempre tão distantes da população?
L.L.V.T. – Na realidade, eu acho que esta é a minha vantagem. Eu sou uma pessoa do povo. Algumas pessoas dizem que Macau precisa do líder dos líderes, eu não concordo. Depois de todos estes anos de abertura, a população de Macau já percebeu quais são as suas capacidades, as suas funções – algumas coisas podemos fazer, outras não. E sabemos que temos que trabalhar para melhorar. Por isso, no futuro, Macau precisa de um líder político que perceba as necessidades vulgares e simples das pessoas.
– É essa então a sua vantagem?
L.L.V.T. – Não é uma vantagem que me seja exclusiva. Penso que tenho essa capacidade porque tive uma infância muito complicada, muito humilde. O meu pai era funcionário público e em 1967 saiu da Administração e passou a ser veterinário. Éramos pobres, tivemos uma criação de galinhas e eu ia vendê-las aos mercados antes de ir para a escola. Depois, a economia familiar melhorou, fui para o Canadá e com apenas 20 anos já estava licenciado e tinha sido aceite no mestrado. Mas o negócio da minha família entrou em falência e tive que voltar. Fui operário numa fábrica, ganhava 1200 patacas por mês, apesar de ser formado em Ciências da Computação e Matemática, mas na altura não havia aqui computadores, estávamos em 1983. Ou seja, já passei por tudo isto e faço o meu melhor para perceber todos os papéis importantes da comunidade. Quando falo em papel importante, não me refiro a liderança – todas as pessoas têm um papel importante na comunidade, desde que tentem o seu melhor, obedeçam à lei e trabalhem arduamente por elas e pelas gerações futuras.

"Gosto de desafios novos e estou habituado a desempenhar diferentes funções. Estarei disponivel para qualquer posição em que possa ser útil a Macau, ou até mesmo para não ter qualquer posição."

"Gosto de desafios novos e estou habituado a desempenhar diferentes funções. Estarei disponível para qualquer posição em que possa ser útil a Macau, ou até mesmo para não ter qualquer posição."

– Parece que Pequim ainda não decidiu – pelo menos, não há indicações nesse sentido – qual o candidato que estará disposto a apoiar. É do conhecimento geral que tem uma boa posição junto das autoridades centrais. Se Pequim demonstrar vontade em que avance para uma candidatura, está disposto a fazê-lo?
L.L.V.T. – Em primeiro lugar, o Chefe do Executivo é eleito pelos membros do colégio eleitoral. Só a 26 de Abril é que temos as eleições para este colégio, mas acredito que todos aqueles que vão ser seleccionados têm a sabedoria para fazerem a sua escolha. Talvez a bênção de Pequim seja um dos aspectos a considerar, mas muito mais importante é que este candidato seja alguém que possa trabalhar com Macau, com todos os grupos e pessoas de Macau, porque a verdadeira e sincera cooperação é uma base muito importante para a sustentabilidade de Macau. Pequim sabe disto. Os membros da comissão percebem isto. Precisamos de alguém com uma visão global porque abrimos as nossas portas. Ao mesmo tempo, precisamos de alguém com raízes locais e que ganhe o respeito local, não só das pessoas locais mas também, ironicamente, dos investidores estrangeiros que aqui estão. Tem que ser alguém que possa comunicar com os funcionários públicos, porque são o mecanismo mais importante para que o Governo funcione de acordo com as necessidades da população. Há muitos critérios a ter em consideração. Mas serão todos tendo em conta algo muito importante: se este homem consegue organizar uma boa equipa para que se chegue a acordo em relação a um objectivo comum. Deve ser alguém com charme político para motivar a sua equipa a trabalhar com um objectivo comum para Macau. Acho que, neste momento, depois do que passamos nos últimos anos, as pessoas de Macau querem ter a certeza de que há justiça e oportunidades para melhorarem a sua qualidade de vida, através de um sistema justo. Que haja um sistema educativo que garanta que as gerações futuras possam trabalhar com um objectivo, não o de serem ricos ou poderosos, mas de tornarem Macau melhor.
– Enumerou características que entende serem importantes no próximo Chefe do Executivo. Vê alguém que se encaixe neste perfil?
L.L.V.T. – Mas este é apenas o meu ângulo! Não é um critério comum definido pelos membros da comissão eleitoral… Talvez não haja um que se encaixe a 100 por cento, mas são todos bons alunos, são pessoas talentosas.
– Aqueles possíveis candidatos de que se fala?
L.L.V.T. – Sim. São todos talentosos e sabem que se forem realmente estes os critérios consensuais, serão capazes de se adaptar a eles. Se assim não fosse, não se candidatavam. Temos que ter confiança na sabedoria dos membros da comissão. Todos eles têm as suas perspectivas pessoais e critérios, e é por isso que terão que combinar diferentes interesses da comunidade de Macau. Há algo que é muito importante: o voto deles não é feito só de acordo com a sua vontade, vão votar depois de ouvirem as pessoas. É importante que saibam ouvir e perceber os desejos da população.
– E acredita que o vão fazer?
L.L.V.T. – É bom que o façam.
– Há quem olhe para si como alguém que pode ser muito útil no próximo Governo…
L.L.V.T. – Como lhe disse, sou uma pessoa que às vezes faz e diz coisas ligeiramente fora do enquadramento. Gosto de desafios novos e estou habituado a desempenhar diferentes funções. Estarei disponível para qualquer posição em que possa ser útil a Macau, ou até mesmo para não ter qualquer posição, se for mais útil assim. Isso não muda a minha paixão por Macau.
– É actualmente presidente do Conselho do Ambiente, que está prestes a ser extinto (como aliás defendeu há já bastante tempo) e membro do Conselho Executivo, que conhecerá uma nova composição depois de ser eleito o sucessor de Edmund Ho.
L.L.V.T. – Talvez fique sem qualquer função. Qual é a surpresa? Mas isso não interessa.
– Mas gostaria de continuar a desempenhar funções políticas em Macau.
L.L.V.T. – Claro. Mas a questão é a razão pela qual faço coisas: é porque amo Macau, e não porque goste da posição ou porque estou nela. Comecei a fazer algo por Macau quando ninguém me conhecia nem tinha qualquer função no Governo. As contribuições não devem equivaler a posições. Isto é muito importante. Contribuo com o que posso porque gosto de Macau, do meu país e quero assegurar um futuro melhor para a geração que aí vem. É tão simples quanto isto. Quando um dia morrer, não sei quanto dinheiro posso deixar aos meus filhos, mas definitivamente vou fazer um grande esforço para fazer com que Macau seja melhor, para que possa aqui trabalhar e viver. E isto não é por ser um homem fantástico, é por egoísmo! Aquilo que fizer hoje vai beneficiar os meus filhos. Tudo o que fazemos de bom acaba por regressar para nós. Se não se tem esta mentalidade, corre-se o risco de desistir porque nem sempre as coisas são fáceis.
– Daqui a uns meses, Edmund Ho chega ao fim de dez anos à frente do Governo da RAEM. Como é que vai recordar o seu amigo enquanto Chefe do Executivo? E como entende que deve ser lembrado?

L.L.V.T. – Ele não é apenas um bom amigo, é também um bom professor. Aprendi muito com ele. E aquilo que mais me impressionou do que aprendi foi que ele faz tudo o que pode por Macau, não é para seu benefício. Depois, há algo que quero aprender, mas que ainda não consegui: ele não se queixa. É muito importante. Teve bons dias e maus dias, mas continua a ser forte, a não desistir e a não se queixar. Olhe para a rosto dele, para o cabelo dele – ele contribuiu muito para Macau e nunca disse ‘porque é que não me compreendem, faço o meu melhor, há coisas que não posso evitar, também cometo erros, mas sou um ser humano!’. Mas ele nunca fez isso, nunca mostrou má cara em público. Compreendeu que tem uma missão para cumprir e uma tarefa para concluir, sendo que este trabalho é para o benefício de toda a comunidade de Macau. E fá-lo com um sorriso na cara.

Isabel Castro, in Ponto Final
Fotos: António Mil-Homens

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