Futuro da Universidade de Macau passa pela Ilha da Montanha

Jornal Ou Mun dá como certa transferência da instituição de ensino superior

Não se sabe para já se é total ou parcialmente, mas a Universidade de Macau deverá ser transferida para a Ilha da Montanha. A construção de um novo campus em solo do Continente faz parte dos planos de expansão da região do Delta do Rio das Pérolas. A possibilidade agrada mas serão várias as questões práticas para resolver.

A Universidade de Macau (UMAC) deverá sair das suas actuais instalações num futuro não muito longínquo, no âmbito do plano de desenvolvimento de uma parte da Ilha da Montanha pelo Governo na RAEM. A notícia foi avançada pelo jornal Ou Mun, que identifica como fonte o vice-director da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, Du Ying.
De acordo com matutino de Macau, o responsável político anunciou no domingo passado o plano de concretização do desenvolvimento integrado do Delta do Rio das Pérolas, que engloba nove cidades chinesas e as duas regiões administrativas especiais.
Estas linhas orientadoras compreendem grandes infra-estruturas, como a ponte que ligará Hong Kong, Macau e Zhuhai, o desenvolvimento de Henqin e a transferência da Universidade de Macau para aquele território chinês.
Segundo o discurso de Du Ying, com o plano do Governo Central pretende-se intensificar a cooperação regional nesta zona da China. São três os objectivos definidos pelas autoridades, sendo que o combate à crise financeira global é o mais importante neste momento.
Em segundo lugar, existe a intenção de reformular o modo como está organizada a maior parte da economia da área, que nos últimos trinta anos tem estado essencialmente assente na indústria manufactureira dependente do mercado de exportações.
Por fim, o plano permitirá a Hong Kong e Macau resolverem os seus problemas de falta de espaço para o desenvolvimento de novas infra-estruturas. É aqui que entra a Ilha da Montanha e o novo campus da Universidade de Macau.

Os prós e os contras

A notícia da transferência da UMAC para a ilha vizinha da RAEM virá confirmar as declarações feitas pelo vice-presidente da China, Xi Jiping, aquando da sua visita recente ao território. Recorde-se que o governante frisou que o espaço a ser explorado pelas autoridades de Macau não deverá ser destinado prioritariamente ao sector imobiliário nem à indústria do turismo, mas sim à construção de infra-estruturas nas áreas da educação e da saúde, permitindo ainda o desenvolvimento de espaços verdes.
A intenção mereceu, de resto, o aplauso de quem aponta a carência deste tipo de espaços em Macau, onde os raros terrenos disponíveis têm sido sobretudo entregues ao sector imobiliário e à indústria do jogo.
A transferência da Universidade de Macau, actualmente localizada na Taipa, parece ser também bem acolhida, a julgar pelos docentes da instituição com quem o Ou Mun falou.
Os entrevistados não estão identificados mas, adiantou o jornal na sua edição de ontem, concordam à partida com a ideia, embora não tenham deixado de sublinhar os problemas que se poderão vir a colocar.
E o primeiro deles diz respeito à existência de uma fronteira entre Macau e a China. “Uma das razões para a transferência de instalações é permitir alargar as vagas para os estudantes da China Continental, tornando o acesso mais conveniente. No entanto, aos alunos de Macau coloca-se o problema da fronteira”, alerta o Ou Mun.
O jornal não parece ter conseguido confirmar a notícia da mudança para a Ilha da Montanha junto dos responsáveis pela universidade. O PONTO FINAL tentou chegar à fala com a reitoria, não tendo sido possível até à hora de fecho desta edição.
O Ou Mun levanta ainda uma outra questão, com base nas “mensagens contraditórias” que chegaram aos ouvidos do pessoal docente: a universidade vai ser totalmente transferida ou será feito um campus adicional em Henqin?
A maioria dos auscultados pela publicação entende que a divisão em dois campus trará grandes inconvenientes aos alunos, que precisam de recorrer a diferentes serviços da universidade durante o ano lectivo. Porém, há um novo edifício em construção – e há quem se apoie neste facto para apostar que a Universidade de Macau manterá uma dependência na Taipa, pois tratar-se-á de um desperdício se assim não for.
No entanto, e atendendo à rapidez com que se constrói e desconstrói em Macau, este argumento pode facilmente cair por terra. Recorde-se que se fala há já alguns anos da transferência da Assembleia Legislativa para um novo edifício, sendo que o actual só agora completará uma década de existência. E a transferência da universidade deverá levar precisamente entre oito a dez anos a acontecer.

Mais longe, mais fácil

A grande vantagem da UMAC passar para a Ilha da Montanha é a possibilidade de fazer uma instituição maior, com mais espaço, que permita acolher mais alunos e desenvolver projectos de outra envergadura.
As actuais instalações pecam em diversos aspectos: além da falta de terreno para expandir o campus, este está situado num local íngreme. O acesso não é fácil e o estacionamento de automóveis também não.
O interior da universidade é labiríntico: quem não conhecer bem o emaranhado de corredores e elevadores que dão acesso aos diferentes edifícios em que a instituição está dividida, facilmente se perde.
Chan Weng Fai e Tong Wing Io, estudantes da UMAC entrevistados pelo Ou Mun, concordam com a transferência de instalações, mesmo que tal implique uma viagem mais longa para chegar às aulas. Mas as vantagens são maiores, apontam: será possível resolver a falta de infra-estruturas, os edifícios poderão ficar localizados em terreno plano e permitirá um melhor ambiente académico.
Acreditam ainda os estudantes que se a UMAC mantiver o actual sistema de funcionamento, não deixará de ser uma universidade local, mesmo estando em solo da China Continental.

Universidade menos local?

Para Lei Pui Lam, deputado à Assembleia Legislativa nomeado pelo Chefe do Executivo e presidente da Associação de Educação de Macau, a questão das características locais da UMAC deve ser relativizada, porque mais importante do que isso, disse ao Ou Mun, é que a universidade seja uma escola com padrões internacionais.
Não que a actual não seja – mas tem limitações devido à falta de espaço. Lei acredita que a missão da UMAC é formar talentos em Macau, mas para isso é preciso que estes tenham uma noção de internacionalização. Levar a instituição para a Ilha da Montanha possibilitará organizar a universidade de modo a cumprir melhor a sua missão.
O Ou Mun mostra-se preocupado com as eventuais consequências do alargamento das vagas aos estudantes da China Continental, por entender que se corre o risco de perder as características de uma universidade de Macau. E de a liberdade académica poder ser restringida.
Lei Pui Lam desvaloriza os receios. Para começar, defende o deputado, a ir para Hengqin, a instituição tem que usufruir de total autonomia. Depois, não acredita que a universidade deixe de ter características locais por acolher um maior número de estudantes do Continente, reiterando que o que importa é mesmo educar com qualidade.

Isabel Castro, in Ponto Final

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