Chui na ribalta ou fora da corrida?

Analistas políticos com leituras distintas sobre nomeação para coordenação dos 10 anos da RAEM

Pode ser mais um sinal do imperscrutável jogo político em torno de quem será o próximo Chefe do Executivo. Chui Sai On foi nomeado na passada semana para coordenar as comemorações do 10º aniversário da RAEM. Significa isto que o secretário é um nome já descartado por Pequim ou que, pelo contrário, vai ganhar terreno com a preparação do acontecimento? As opiniões não são consensuais.

A nomeação teria passado despercebida se não houvesse o hábito de ler o Boletim Oficial (BO). O Gabinete de Comunicação Social não divulgou qualquer nota à imprensa sobre o assunto, apesar de se tratar do primeiro passo para as comemorações oficiais do 10º aniversário da transferência de administração do território.
Chui Sai On foi nomeado por despacho do Chefe do Executivo para ser o coordenador de “um conjunto de eventos e actividades sócio-culturais tendentes à celebração de tão importante e significativa data”, explica o BO da última quinta-feira.
Tem esta escolha algum significado político de relevo, atendendo ao facto de Chui Sai On ter vindo a ser apontado, cada com vez mais insistência, como o provável grande candidato a sucessor de Edmund Ho?
Para Larry So, professor de Administração Pública do Instituto Politécnico de Macau, a nomeação de Chui Sai On não se deve à sua competência ou experiência em matéria de organização de eventos. Explica-se, isso sim, através da perspectiva dos lances políticos.
“É uma boa desculpa para estar mais exposto”, começou por analisar. “A nomeação significa que terá uma maior exposição e em áreas onde por norma não intervém – poderá fazer lobby junto delas”, continuou Larry So.
Para o professor, “poderá funcionar como uma espécie de campanha”. É também um sinal claro do apoio do actual líder do Governo. “Chui Sai On pertence ao mesmo grupo político de Edmund Ho. O Chefe do Executivo está a dar-lhe um forte apoio, porque o está a colocar em vantagem em relação a Ho Chio Meng”, acrescenta.
Não que o secretário para os Assuntos Sociais e Cultura tenha estado atrás do procurador da RAEM nesta corrida invisível, ressalva Larry So. Mas certo é que, para o analista, a nomeação para a coordenação da comissão representa vários pontos de avanço em relação ao candidato a candidato com maiores possibilidade de travar um frente-a-frente com Chui.
“Neste momento Ho Chio Meng e Chui Sai On deverão ser os dois nomes em cima da mesa”, acredita So. “O secretário encontra-se numa posição mais vantajosa.”

Outros actos depois deste

Eric Sautede, professor de Estudos de Governação do Instituto Inter-Universitário de Macau, concorda com a análise de Larry So no que à posição de Chui Sai On diz respeito.
“Esteve na linha da frente das ajudas dadas pela RAEM às vítimas do terramoto de Sichuan, ocupou desde sempre lugares de protagonismo no âmbito desta Administração.” O politólogo recorda ainda que foi sob a sua tutela que se organizaram três grandes eventos multidesportivos em Macau, entre 2005 e 2007.
A festa dos 10 anos da RAEM será feita por altura da mudança de Governo. Eric Sautede não vê qualquer “contradição” no facto de Chui Sai On ser o organizador de umas comemorações que, ao fim e ao cabo, poderão ser aquelas que marcam a sua ascensão ao poder, caso seja mesmo o preferido do Governo Central.
Ou será esta nomeação um prémio de consolação? “Não me parece. Não será o seu último acto político, de certeza.”
O analista não se alonga e diz considerar que as leituras que se fazem acerca das movimentações políticas dos últimos tempos podem resultam em algo “ridículo”. “Acredito que não se saberá nada acerca dos candidatos a Chefe do Executivo antes de Março.”
Esta indefinição em relação ao nome do(s) candidato(s) a líder do Governo não é consequência, acredita Sautede, de um jogo político ao qual os comuns mortais não têm acesso. Deriva antes do “estado do sistema político de Macau”, ou seja, “o sistema não está consolidado e tal deve-se ainda ao escândalo de 2006”.
Recordando que, aquando da sucessão de líderes na China em 2003, sabia-se com antecedência quem seriam os responsáveis políticos do país, o politólogo defende que o que está a acontecer em Macau não é característico da maneira chinesa de fazer política, acrescentando que é até “contra-producente”.
A indefinição, prossegue, deve-se mesmo ao facto de “Pequim já ter uma ideia, mas ainda não ter tomado uma decisão.” A confirmar esta teoria estarão reuniões recentes realizadas na província vizinha de Guangdong, em que terá sido feita uma análise ao estado das coisas políticas da RAEM e que terá contado com alguns elementos locais.
Eric Sautede chama ainda a atenção para outro factor que torna a escolha mais difícil: “O Governo Central tem que decidir se quer um Chefe do Executivo para um mandato ou para dois, o que faz com tudo isto seja ainda mais complicado.”
Há quem entenda que a nova fornada de políticos (onde se incluem nomes como Chui Sai Peng e Lionel Leong Vai Tac) ainda não está suficientemente amadurecida para assumir de imediato o poder, o que poderá levar Pequim a escolher um Chefe do Executivo de “transição”.
O nome de Florinda Chan – a sucessora natural de Edmund Ho por ser o nº 2 do Governo, não fossem as muitas críticas tecidas ao desempenho das suas funções – parece ainda não ter desaparecido totalmente da lista de hipóteses.
Com um passado sem ligações empresariais de qualquer género, os seus antecedentes poderão ser favoráveis caso o Governo Central entenda apostar em alguém mais neutro em termos de posicionamento social.

Sem tempo para tudo

Agnes Lam afasta-se das leituras de Larry So e de Eric Sautede. Para a comentadora, a escolha de Chui Sai On para liderar as comemorações do 10º aniversário da RAEM “é uma opção natural”. Um evento de tamanha envergadura tem que ter à frente da sua organização “alguém com grande peso político”.
Mas é precisamente a envergadura e a importância do acontecimento que levam a docente da Universidade de Macau a entender que a escolha para o cargo poderá traduzir-se em “manifesta falta de tempo para fazer campanha e liderar a organização das comemorações em simultâneo”.
Embora a lei “não seja clara” nesta matéria, os prováveis candidatos ocupam funções públicas e, caso decidam entrar mesmo na corrida, entende Lam que deverão suspender as suas funções enquanto estiverem a fazer campanha eleitoral. “Por uma questão de clareza.”
Seguindo este raciocínio, será que Chui Sai On irá fazer uma pausa nas suas funções de coordenador para mostrar que é o homem capaz de reger os destinos da RAEM? “Claro que tudo depende da calendarização das eleições, mas não me parece que, assim sendo, seja candidato.”
A duração do grupo de trabalho de que Chui é coordenador é de um ano. Se for mesmo o sucessor de Edmund Ho, terá ainda funções delegadas neste mandato enquanto secretário quando tomar posse como Chefe do Executivo.

Isabel Castro, in Ponto Final

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