O povo contra a Sands

Grupo de residentes apresenta hoje queixa em tribunal contra concessionária

Um grupo de residentes de Macau vai interpor hoje uma acção em tribunal contra a Las Vegas Sands. Numa campanha iniciada ontem, este grupo, que dá pelo nome de “Concerned Macau Residents Group”, aponta o dedo à empresa de Sheldon Adelson dizendo que não está a cumprir as promessas que fez. Para já, a Sands não reage.

"A Sands fez muito dinheiro em Macau mas, em vez de concluir o trabalho no Cotai, parou de investir e redireccionou os seus recursos e dinheiro para Singapura”, acusa o grupo.

"A Sands fez muito dinheiro em Macau mas, em vez de concluir o trabalho no Cotai, parou de investir e redireccionou os seus recursos e dinheiro para Singapura”, acusa o grupo.

Dizem ter um núcleo duro com mais de meia centenas de pessoas, todas elas residentes de Macau com interesses directos nos sectores do jogo e do imobiliário. Ontem lançaram uma campanha de recolha de assinaturas para uma petição destinada ao Chefe do Executivo. Alegam que, para já, não têm o apoio de “gente influente” da RAEM, mas esperam poder vir a contar com a solidariedade de quem mais manda no território.
“Isto é um movimento de residentes de Macau que são amigos e que foram afectados pelas acções da Sands”, explicou ao PONTO FINAL o presidente do “Concerned Macau Residents Group”, Ip Kim Fong, no final de uma conferência de imprensa organizada para apresentar este movimento cívico.
“Essencialmente, o grupo é constituído por pessoas que perderam o emprego nas indústrias do jogo e do imobiliário, e que estão preocupadas com as atitudes da Sands”, continuou Ip, que assegura não ter tido qualquer ligação à empresa de Sheldon Adelson e apresenta o facto de ser residente de Macau como único dado de relevo para as suas funções de líder. Do seu cartão de visita não constam grandes informações: apenas o número de contacto e o escritório de advogados com quem está a trabalhar nesta acção contra a Sands.
O grupo de residentes preocupados entende que o Governo deve agir no sentido de proteger os cidadãos atendendo à presença da Sands em Macau. “É o que diz a Lei Básica – o Governo tem a obrigação de zelar pelos interesses dos residentes”, expõe Ip Kim Fong.
“A Sands fez muito dinheiro em Macau mas, em vez de concluir o trabalho no Cotai, parou de investir e redireccionou os seus recursos e dinheiro para Singapura. Os trabalhos vão ficar assim, por concluir, enquanto as pessoas perdem os seus empregos”, alega.

Das obrigações do Governo

Não obstante ser um grupo de residentes de Macau, o movimento liderado por Ip Kim Fong não vira as costas a quem, não sendo de cá, também se sente afectado pela conduta da Sands. “Não podem assinar a petição, mas estão a nosso lado e defendemos também os seus interesses”, vinca o presidente.
Até à próxima quinta-feira, o grupo está a recolher assinaturas para entregar uma petição ao Chefe do Executivo, que será também endereçada à presidente da Assembleia Legislativa. Para hoje está agendada a interposição de uma acção em tribunal contra a concessionária.
Mas o assunto não é para cair no esquecimento enquanto as autoridades governamentais e judiciárias avaliam o caso. “Vamos continuar a convidar as pessoas de Macau a irem ao nosso site e a fazerem o download da petição. Esperamos que muitas pessoas assinem”, sublinha o responsável.
A avaliar pelo site, em http://www.macauresidents.com, estes residentes que agora se rebelam contra a empresa do multimilionário Sheldon Adelson estão bem organizados.
O sítio na Internet, com versões em língua inglesa e chinesa, dispõe de informações várias, desde uma apresentação do movimento ao conteúdo da petição, incluindo ainda um texto em que são expostas as razões pelas quais os residentes de Macau devem aderir à causa. Mas é um movimento que, na sua versão online, não tem uma identidade assumida.
O grupo expõe os argumentos que constam da queixa a remeter ao Governo da RAEM, começando por explicar que “as acções da Sands vão causar prejuízos à economia de Macau e à população de Macau”. Depois, alega que “os trabalhos incompletos no Cotai podem acabar por ser elefantes brancos e serem um fardo para a população de Macau, ocupando grandes extensões de terreno escasso e valioso”.
O movimento entende que o Governo tem a obrigação de investigar a queixa a apresentar e rever o tratamento e a concessão dada à Sands, vendo de que modo tem a concessionária cumprido o contrato firmado com a RAEM.
Estes residentes defendem igualmente que compete ao Executivo evitar que “a Sands desvie os seus lucros e dinheiro feitos em Macau para completar o projecto de Singapura a não ser que a empresa coloque de lado fundos suficientes para completar primeiro o seu projecto no Cotai”.
No site, que à hora de fecho desta edição contava com mais de 1600 visitas, o grupo reitera querer juntar o maior número de assinaturas de residentes e de empresários para enviar ao Governo, de modo a que este possa rever a sua relação com a Sands e “cancele rapidamente as concessões de terrenos” garantidas à concessionária. Estas “devem ser novamente atribuídas, por concurso público, a quem der mais, de modo a que a população não tenha seja sobrecarregada com as obras incompletas da Sands e o abandono dos trabalhos no Cotai”.

Silêncio até ver

Para já, a Sands prefere não tomar qualquer posição em relação ao aparecimento deste grupo nem quanto à notícia que dá conta da interposição de uma acção junto dos tribunais da RAEM.
“Estamos a estudar o assunto”, disse ao PONTO FINAL um porta-voz da concessionária, que preferiu não se alongar em explicações.
A Las Vegas Sands foi a primeira concessionária do jogo a demonstrar não estar preparada para a crise financeira internacional. Ainda pouco dela se falava quando, em Novembro passado, anunciou a suspensão das obras no COTAI e despediu 11 mil trabalhadores. Destes, dois mil são residentes de Macau.

Isabel Castro, in Ponto Final

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