Agnes Lam pondera candidatura à Assembleia

“Não posso estar a julgar e a jogar ao mesmo tempo”

É a analista política mais proeminente de Macau. Agnes Lam foi jornalista, é professora universitária, membro de vários conselhos consultivos do Governo e poetisa nas horas vagas. Ao PONTO FINAL, avança que está a ponderar candidatar-se às eleições legislativas. E explica as razões da sua indecisão. Quanto ao próximo Chefe do Executivo, defende que deve ser alguém capaz de manter a singularidade de Macau. E de liderar a cidade.

– Fundou a Associação de Energia Cívica de Macau (AECM) no ano passado e tem estado a trabalhar neste projecto desde Setembro. Como é que está a ser a experiência?
Agnes Lam – Não está a ser como prevíamos mas, de qualquer forma, estamos muito próximos daquilo que tínhamos planeado. Logo no início, pretendíamos analisar a escrever sobre política, comentar questões sociais. Neste âmbito, já escrevemos e publicámos vários artigos, essencialmente no jornal Ou Mun, em que analisámos questões como as restrições aos titulares dos cargos públicos após o fim de funções. Também analisámos o Artigo 23º e organizámos um fórum público sobre a liberdade de expressão. Temos mesas-redondas mensais sobre questões sociais.
– Diz que não está a correr conforme tinha previsto. Em que sentido?
A.L. – Logo no início, definimos que um dos principais objectivos era juntar pessoas e estudar questões de interesse público. Mais tarde, começámos a debater o que significava juntar pessoas. Será tentar encontrar muita gente e pô-la toda numa mesa redonda? Descobrimos que, provavelmente, poderá não ser a melhor solução. Estamos ainda a tentar ver qual será a melhor forma de trabalhar ao nível da análise dos assuntos públicos – se será melhor através de fóruns abertos ou se por via de discussões internas. Se queremos transformar as discussões em eventos públicos, o modelo tem que ser diferente. Se queremos ter debates mais aprofundados com pessoas de diversas áreas, talvez o melhor seja discutir primeiro e depois transformar o resultado dessas análises em textos e artigos. Não está longe das minhas expectativas, mas a forma como estamos a gerir a associação é um pouco diferente do que previa.
– Alguns analistas entendem que a AECM pode passar de um movimento cívico para um predominantemente político. E que poderá ser candidata à Assembleia Legislativa (AL). Vai avançar com uma candidatura nas eleições deste ano?
A.L. – Para ser honesta, nos últimos meses várias pessoas me têm feito essa pergunta. Posso dizer-lhe que esta não foi a intenção inicial. Pensei que precisávamos de uma nova associação em Macau, que devíamos promover a ideia de que as pessoas devem expressar as suas opiniões e não permanecerem em silêncio. Acredito que devemos juntar todo esse poder cívico. Devo admitir que, quando formámos este grupo, era um pouco idealista, achava que o movimento poderia ter uma posição neutra, não estarmos ligados a nenhum grupo e tentarmos monitorizar tudo. Na realidade, não discutimos se queremos ser uma associação política ou não. Percebemos apenas que algumas pessoas não nos estão a representar e que temos algo a dizer sobre determinadas questões. Mas nos últimos meses descobri que há muita gente a pensar que vou concorrer às eleições. Como não foi essa a intenção da AECM, mas as pessoas perguntam-me, isto faz-me pensar que haverá uma falta de representatividade deste tipo de poder. Estou a considerar essa hipótese, mas não era a minha intenção inicial.
– Está então a ponderar a hipótese de avançar com uma candidatura já este ano.
A.L. – Sim, estou a ponderar. Isto não é uma resposta política, é uma resposta sincera: já tenho uma posição na sociedade e estou a fazer uma série de trabalhos, preciso de considerar se sirvo melhor a sociedade mantendo o meu actual estatuto ou concorrendo às eleições.
– Defende publicamente que a AL não representa vários sectores da sociedade. Essa ponderação que está a fazer tem em conta que a sua candidatura poderia introduzir diversidade em termos de representatividade?
A.L. – Sim, sim. Mas estou numa situação difícil. Vi-me sempre como uma analista e comentadora de questões políticas e sociais. Mas depois da criação da AECM parece que já não estou mais no papel de quem julga e sim no de jogador. Não estou pronta para mudar de papel e passar a estar no jogo.
– Mas não acha que estando dentro do jogo pode continuar a julgar?
A.L. – Terá que haver um equilíbrio e terei que ser capaz de encontrar uma forma de o fazer. Não posso estar a julgar de vez em quando e a jogar noutras alturas, ou ser alguém que julga e joga ao mesmo tempo. Não sei. Mas estou a ler muito, a tentar encontrar uma via, a ponderar. Estou a ler algumas teorias sobre Ciência Política e História de Macau, para ver qual será a melhor forma de uma associação como a AECM sobreviver e dar o melhor contributo. Não tenho a certeza se alguém como eu está preparada para se candidatar, porque estive muitos anos noutra posição. Preciso de ponderar. Trabalho na Universidade de Macau e estou também nalgumas comissões do Governo. Tudo isto precisa de ser pensado. A partir do momento em que se é jogador, não se é apenas uma vez. Para mim, significa mudar o rumo de vida. Não é assim tão fácil decidir.
– Há espaço para novos rostos na Assembleia, ou a sua composição será mais ou menos a mesma depois das eleições deste ano?
A.L. – Uma vez que as pessoas ainda não anunciaram as suas estratégias, não sabemos se haverá novos rostos. Mas precisamos de mudança e julgo que há espaço para gente nova. Resta saber se vão aparecer pessoas interessadas. Ainda assim, é preciso ter em consideração o padrão de voto do eleitorado de Macau. Quando vão votar, muitas pessoas continuam a fazê-lo com base em questões pessoais. Se as pessoas não julgam os candidatos pelas suas capacidades e competências específicas, é algo que tem um resultado muito pouco positivo. Precisamos de fazer mais estudos sobre os comportamentos do eleitorado em relação ao voto. É algo que tem que mudar, e que é muito cultural.
– Mas sente que há novos rostos a aparecer na política de Macau?
A.L. – Nem por isso. Parece que algumas das associações que já estão na AL terão cerca de cinquenta por cento de gente nova. Ng Kuok Cheong e Au Kam San estão a tentar atrair novas pessoas, os Kaifong estão a fazer o mesmo. As associações estão a tentar fazer isso, mas não me parece que estejam a ser muito bem sucedidas.
– Sabemos já que Susana Chou não se vai recandidatar. Quem a poderá substituir?
A.L. – A pessoa que ocupar o cargo de presidente da AL terá que ter muita experiência na Assembleia. Se for esse o critério de escolha, não há muitas hipóteses. Leonel Alves poderá ser um bom presidente, é advogado, tem capacidade para lidar com questões jurídicas. É um bom candidato ao cargo. Mas a Assembleia não é só uma máquina legal, é também uma plataforma para a expressão da opinião pública. É necessário ter alguém que seja capaz de gerar um equilíbrio nesse aspecto e que seja politicamente influente. Alguns deputados chineses como Lau Cheok Va podem ser candidatos fortes. Mas a AL não tem sido muito bem sucedida no que toca à produção legislativa. Se tivermos alguém como Leonel Alves poderá haver uma maior dinâmica nesse sentido. Não sei se algum deles estará sequer interessado. Mas têm ambos experiência suficiente.
– Referiu agora que a AL é uma plataforma de expressão da opinião pública. Ter cinco deputados ligados ao jogo em apenas 29 não é um desequilíbrio em termos de representatividade? Até 2005 ainda havia João Bosco Cheang que representava os trabalhadores do sector, mas neste momento são só elementos do patronato. Tem receio que se repita o mesmo este ano?
A.L. – Tenho muito receio. Não é só na Assembleia que não há equilíbrio, mas sim em todas as estruturas políticas que temos neste momento – até o Conselho Executivo tem demasiados empresários. Em relação à AL, quando se fala nesses cinco deputados do jogo, são aqueles que estão directamente associados, mas há outros com ligações indirectas aos casinos. Não ocupam assentos por estarem a representar os interesses dos cidadãos comuns. Na próxima legislatura, será necessário fazer muito trabalho para regulamentar a área do jogo, porque nos últimos anos estivemos muito ocupados com a abertura do mercado. Há muitos problemas e é necessário controlá-los, e essas medidas devem partir da AL. Se tivermos muitos deputados que são empresários ligados ao jogo, então duvido que seja possível fazer o que é necessário. Por outro lado, estes patrões todos juntos são os maiores empregadores de Macau. Estando na Assembleia, até que ponto influenciam as questões relacionadas com os trabalhadores? Já se viu isso durante a discussão da lei laboral. Será muito mau se a Assembleia não tiver algum equilíbrio.
– Este ano temos também as eleições para o Chefe do Executivo, que poderão ser já entre Maio e Junho. Mas não há ninguém que tenha assumido publicamente disponibilidade para ser candidato. Já chegou a altura de alguém avançar e revelar as suas intenções?
A.L. – Se os candidatos quisessem conquistar a atenção e os votos da população, já deveriam ter assumido as suas intenções e deixado que as pessoas os avaliassem. A questão é que não precisam dos votos da população. Só precisam dos votos dos 300 membros do Colégio Eleitoral. É um jogo diferente.
– O jogo faz-se junto desses 300 eleitores.
A.L. – Sim. Depois, há que pensar que, depois do caso Ao Man Long, o Governo da RAEM ficou algo enfraquecido. Talvez o Governo Central não queira que os nomes sejam conhecidos publicamente cedo, porque ainda existe um ano para gerir e não é desejável ter um Governo que nada faça e fique a observar quem vem a seguir.
– O Ou Mun falava este fim-de-semana de “quatro candidatos mais um”: Ho Iat Seng, Ho Chio Meng, Chui Sai On, Francis Tam e Lionel Leong Vai Tac. Desde a sua vitória nas eleições para a Assembleia Popular Nacional que se fala na possibilidade de ter um cargo político e executivo, mas no domingo passado o Ou Mun lançou-o como provável candidato.
A.L. – É um nome que tem aparecido na lista. Há alturas em que Chui Sai On tem aparecido como sendo o candidato garantido, e as pessoas esquecem-se de outros nomes. Mas neste momento parece que nenhum deles é o favorito.
– Algumas pessoas entendem que o escândalo de corrupção de Ao Man Long levará Pequim a não optar por ninguém da actual equipa, o que afastará da corrida Chui Sai On e Francis Tam.
A.L. – Parece-me ser essa a questão chave. Se isso não for um problema para Pequim, então Chui Sai On é o candidato número um. Embora não esteja directamente associado ao caso Ao Man Long, a imagem de toda a equipa foi prejudicada. Chui e Tam foram ambos afectados.
– O processo de Ao Man Long teve efeitos exactamente opostos no caso de Ho Chio Meng, que saiu prestigiado com toda esta história. Mas há quem diga que falta ao procurador da RAEM experiência em termos políticos e administrativos. Concorda?
A.L. – Claro que ter experiência a esse nível será melhor, mas não me parece que isso seja o mais importante. Precisamos de saber que tipo de pessoa necessitamos para Chefe do Executivo. Precisamos de alguém que seja capaz de liderar uma equipa. Claro que é uma desvantagem não ter experiência na Administração, mas tem argumentos fortes que outros eventuais candidatos não têm.
– Mas há algum destes candidatos que preencha essa necessidade de termos alguém com capacidade de liderança e de mobilização de uma equipa?
A.L. – O problema é que, neste momento, nenhum deles está a mostrar as qualificações que tem. Não se afirmaram publicamente como candidatos e não estão a demonstrar às pessoas que têm confiança para liderar Macau. Se julgarmos só por aquilo que fizeram até agora, talvez os dois actuais secretários sejam aqueles que têm melhores qualificações. Mas ainda assim não são o tipo de pessoas que tenham concorrido a eleições e que façam discursos públicos sobre o que pensam, qual é a sua ideologia. A única coisa que nos dizem é quais são as políticas que o Governo vai pôr em prática. As dimensões que mostraram publicamente até agora não são suficientes para que possa fazer uma avaliação. Quando se fala nestes quatro ou cinco candidatos, costumo dizer que todos eles têm hipóteses, mas nenhum deles está garantido. Todos eles têm vantagens e desvantagens tão óbvias! Ho Iat Seng, por exemplo, tem como vantagem ser muito próximo ao Governo Central mas, por outro lado, não tem grandes ligações ao nível da sociedade local. Espero que, se algum deles estiver interessado, assuma a sua posição o mais cedo possível e tente conquistar a opinião do público por ele próprio e não por ter sido o que recebeu o aperto de mãos mais demorado de Xi Jinping. Embora não tenha direito a votar, seria bom que o candidato viesse a público dizer-me que vai ser ele o líder.
– Ou seja, que viesse ter com a população e lhe transmitisse confiança.
A.L. – Se algum deles quiser demonstrar que vai ser um líder responsável, deve assumir as suas intenções e deixar as pessoas saber o que pretende fazer.
– Julga que vamos ter mais do que um candidato, à semelhança do que aconteceu em 1999?
A.L. – Julgo que sim, que não será apenas um.
– Além da capacidade de liderança, que outras características deverá ter o próximo Chefe do Executivo?
A.L. – Deve ser alguém com visão para saber como integrar Macau no Delta do Rio das Pérolas. Precisa de compreender Macau o suficiente para saber porque é que Macau é único e tentar mantê-lo como o lugar especial que sempre foi. Precisamos de emergir no Delta do Rio das Pérolas com uma identidade única. Isso será muito importante.

Isabel Castro, in Ponto Final

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