O significado político de um pastel de bacalhau

Vice-presidente da China demonstra apoio de Pequim à comunidade macaense

São visitas de cortesia e frases mais ou menos de circunstância, mas não há dúvida de que assumem uma importância política incontornável. Relevância acrescida pelo momento político que se vive – o de uma transferência de poder – e pelas declarações a roçar a xenofobia que volta e meia se ouvem. Para que não haja dúvidas, Xi Jiping veio cá dizer que Pequim preza muito a comunidade macaense.

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Foi uma mensagem para os macaenses mas não só, entende Jorge Fão. “Foi para toda a população de Macau”. Xi Jiping esteve ontem reunido com mais de duas dezenas de filhos da terra (sensivelmente o mesmo grupo que esteve, há poucos meses, em Pequim) e salientou o contributo da comunidade miscigenada para “a prosperidade e estabilidade do território”.
“Embora tenha sido um encontro de cortesia, a China quis, através de um dirigente ao mais alto nível, deixar uma mensagem”, comentou o ex-deputado ao PONTO FINAL. “Ouvi-o invocar a Lei Básica para defender que os interesses dos macaenses devem ser sempre protegidos”, realça. “Foi esta a mensagem que quis passar.”
Para Carlos Marreiros, que esteve também no encontro com o vice-presidente, há um carácter simbólico forte que deve ser salientado. “Sentimo-nos honrados. Sendo um comunidade pequena mas que apostou na permanência em Macau e que acredita no princípio ‘um país, dois sistemas’, o encontro tem um valor simbólico muito grande.”
É ainda “um voto de confiança para continuarmos a trabalhar e a acreditar no futuro de Macau, e obriga-nos a redobrar a nossa responsabilidade para contribuir para a RAEM”, acrescenta o arquitecto, que gostou de ver o interesse de Xi Jiping pela comunidade e por aquilo que teve oportunidade de ver nas Casas Museu da Taipa, onde se realizou o encontro.
Leonel Alves destaca também este “interesse” do vice-presidente, o provável sucessor de Hu Jintao na presidência da China, quando houver troca de cadeiras em 2012. “Gostou muito de ver a multiculturalidade de Macau, o semblante das pessoas nas fotografias”, observa o deputado, fazendo referência à exposição que Xi viu na Taipa.
O encontro “é um sinal de que o Governo Popular Central tem como objectivo a estabilidade de Macau e o desenvolvimento económico, sendo que a comunidade macaense faz parte deste grande projecto”. É igualmente uma garantia de estabilidade ao nível de orientações políticas, continua Alves, “independentemente do novo Governo”.
Jorge Fão fala do passado para se congratular com o presente. Recordando que, após a criação da RAEM, “nem sempre os macaenses e portugueses foram tratados como mereciam”, vê na postura de Pequim “um estímulo que tranquiliza a comunidade, para que aqui possa viver e trabalhar em harmonia”.
Xi Jinping esteve na Taipa acompanhado pelo Chefe do Executivo. No local, sublinhou “a atenção do Governo Central à protecção dos interesses dos habitantes de ascendência portuguesa, tal como que está claramente consagrado na Lei Básica”. Além de ter visitado as Casas Museu, assistiu a danças folclóricas portuguesas e provou comida tipicamente portuguesa.
Também ontem de manhã, mas numa visita ao Museu de Macau, o vice-presidente elogiou “o espírito de tolerância e abertura das gentes de Macau que sempre têm defendido a independência nacional e lutado por uma vida da alta qualidade”.

Isabel Castro, in Ponto Final

Foto: GCS

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