A importância relativa de um aperto de mão

Xi Jinping não deixou pistas sobre quem será o candidato preferido de Pequim

É bem provável que, atendendo a que estamos em ano de eleições, o mais alto responsável político da China com a pasta dos assuntos de Macau e Hong Kong tenha a vindo à RAEM perceber quais são as sensibilidades locais. Porém, não revelou preferências, dizem os observadores atentos. Além dos quatro possíveis candidatos de que se tem falado, o jornal Ou Mun lança mais um nome. É ele Lionel Leong Vai Tac.

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É o mistério político do ano e a visita de Xi Jinping não trouxe pistas. As preferências de Pequim em matéria de futuro Chefe do Executivo da RAEM continuam no segredo do Politburo. Porém, consideram alguns, é bem provável que, mesmo sem ter feito uma “auscultação” sobre a questão, o vice-presidente da República Popular da China (RPC) tenha tido (também) como intuito sentir o ambiente que se vive no território. Atendendo ao momento político actual, deverá ter tentado perceber quais são as sensibilidades locais.
O deputado Leonel Alves concorda com esta análise. “O vice-presidente já tinha prometido que vinha a Macau. Agora é o momento ideal, estamos em ano de eleições e a discutir o Artigo 23º. Foi uma visita para ver o ambiente de Macau e também para transmitir uma mensagem de tranquilidade”, disse ao PONTO FINAL.
Para o também membro da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, esta ideia que o vice-presidente da RPC veio passar é de particular importância, atendendo ao momento económico que se vive, com naturais impactos em termos sociais. O facto de Pequim ter vindo reiterar o seu apoio à RAEM deve ser, deste modo, encarado como importante, de uma perspectiva política.
Para o arquitecto Carlos Marreiros que, tal como Leonel Alves, se encontrou ontem com Xi Jinping, “é natural que o vice-presidente tenha vindo adquirir um conhecimento mais profundo da realidade de Macau”. Recordando que Xi já cá tinha estado algumas vezes, mas nunca no cargo que agora desempenha (foi nomeado em Março passado), sublinhou que a visita tem uma importância política acrescida tendo em conta que as eleições para o Chefe do Executivo acontecem este ano.

Candidatos até Março

Para Marreiros, é bem provável que o mistério dos candidatos a sucessores de Edmund Ho se resolva logo a seguir ao ano novo chinês, o mais tardar no espaço de dois meses. “Já não há realmente muito tempo”, comentou ao PONTO FINAL. O arquitecto fala em “candidatos”, no plural, por acreditar que não será apenas um o político local a demonstrar publicamente disponibilidade para ser Chefe do Executivo.
Já Jorge Fão, ex-deputado à Assembleia Legislativa, analisa que estarão neste momento “posicionados” pelo menos três candidatos: os secretários Chui Sai On e Francis Tam, e o procurador da RAEM, Ho Chio Meng. Quanto ao empresário Ho Iat Seng, aponta, “se diz que nunca pensou nisso é porque não deverá estar interessado, se não já tinha pensado”. Os outros três “têm hipóteses de serem escolhidos”.
Fão não acredita, porém, que Xi Jiping tenha vindo a Macau para fazer uma “auscultação em 32 horas”. Veio sentir a terra, mas ainda há tempo para decidir sobre esses assuntos. “Pela agenda que temos pela frente, as eleições para o Chefe do Executivo poderão ocorrer no início do segundo semestre”, calcula, recordando o processo de 1999. “Ainda há tempo mais do que suficiente para se fazer uma boa escolha.”
As previsões do ex-deputado em relação a anúncios públicos coincidem com as de Carlos Marreiros. “Até Março deve haver um nome”, diz Jorge Fão.

O novo nome do Ou Mun

Diz o jornal Ou Mun, num artigo publicado na edição de ontem, que as expectativas de quem achava que Xi Jinping viria a Macau “abençoar” o preferido de Pequim a sucessor de Edmund Ho saíram defraudadas.
O diário local mais lido em Macau decidiu observar a postura do vice-presidente da RPC no contacto com os possíveis candidatos, e concluiu que todos mereceram a mesma deferência. É que, garante o Ou Mun, a duração dos apertos de mão enquanto “medidor das bênçãos” não funcionou, especialmente em relação aos “quatro favoritos”. Xi trocou apertos de mãos pelo menos duas vezes com todos eles e, salienta o matutino, tiveram todos duração semelhante: entre dois a três segundos, de acordo com a cronometria jornalística.
O Ou Mun aponta entre Maio e Junho como o período mais do que provável para a realização das eleições. E, pela primeira vez, incluiu na sua lista de candidatos a candidatos Lionel Leong Vai Tac. “Agiu como um anfitrião ajudando a receber as pessoas para a reunião”, observa o jornal sobre o empresário e delegado da RAEM à Assembleia Popular Nacional (APN).
Recorde-se que Leong Vai Tac foi a grande surpresa das eleições para a APN realizadas em Macau em Janeiro do ano passado. Embora se tivesse candidatado pela primeira vez, foi o representante que mais votos mereceu do colégio eleitoral, “batendo” o eterno preferido, Ho Iat Seng, que ficou em quinto lugar na classificação geral.
Em declarações há cerca de meio ano à imprensa em língua portuguesa, Lionel Leong não assumiu estar interessado, para já, em ter um elevado cargo político na estrutura da RAEM, mas mostrou disponibilidade para ajudar Macau no que for preciso.
Certo é que há quem veja com muitos bons olhos uma possível candidatura do empresário: com um contexto em alguns aspectos semelhante ao de Edmund Ho (sobretudo a experiência enquanto gestor), Leong é membro do Conselho Executivo desde 2004. O facto de ter sido escolhido para coadjuvar o Chefe do Executivo na tomada de decisões foi lido, na altura, como uma possível preparação para a assunção de um cargo político de maior responsabilidade.
Além da postura de Lionel Leong durante o encontro com Xi Jiping, o Ou Mun observou também a atitude das outras figuras públicas que têm vindo a ser faladas enquanto possibilidades.
Chui Sai On e Francis Tam estiveram a conversar um com o outro, aponta o matutino. Ho Iat Seng esteve a falar com a presidente da Assembleia Legislativa, Susana Chou, e com os seus colegas do Conselho Executivo Leong Heng Teng e Alexandre Ma.
Ho Chio Meng foi o primeiro a apertar a mão ao vice-presidente da RPC no encontro com individualidades de diferentes sectores (para o qual foram convidados também funcionários públicos, realça o Ou Mun) devido ao cargo que ocupa. Questionado sobre uma  eventual candidatura no final da recepção oficial, o procurador da RAEM limitou-se a um algo lacónico “Obrigado pela vossa preocupação” e saiu de imediato.

O que disse Xi

No passado sábado, durante o jantar de boas-vindas oferecido pelo Governo da RAEM, Xi Jinping fez uma curta referência às eleições que se realizam durante este ano em Macau. De acordo com o Gabinete de Comunicação Social, o vice-presidente sublinhou que “o Governo Central acredita que o Executivo e todos os sectores sociais de Macau conseguem tratar convenientemente destes assuntos tão importantes e que dizem respeito ao desenvolvimento a longo prazo e ao bem-estar da população”. E mais não disse.

Isabel Castro, in Ponto Final

Foto: GCS

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