Da oficina ao laboratório do mundo

O futuro da China pode passar por aqui

Trinta anos volvidos da reforma económica do Império do Meio, a China volta a olhar para Sul para definir um novo modelo de desenvolvimento. Pequim anunciou ontem que pretende transformar o Delta do Rio das Pérolas – Macau e Hong Kong incluídas – na área mais dinâmica da região Ásia Pacífico em 2020. Aí está a verdadeira oportunidade da RAEM se internacionalizar.

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São duas notícias curtas e que não fornecem informações pormenorizadas, mas que dão a conhecer uma decisão de fundo tomada por Pequim. A Agência Xinhua avançou ontem que o Delta do Rio das Pérolas, que esteve na vanguarda da abertura da China, vai ser o balão de ensaio do país para aprofundar a reforma da economia e permitir uma maior abertura ao mundo.
A decisão faz parte de um plano definido pela Comissão da Reforma e do Desenvolvimento Nacional. O organismo quer que o Delta do Rio das Pérolas – juntamente com Hong Kong e Macau – se transforme na “zona mais dinâmica da região Ásia Pacífico” e seja “globalmente competitiva”, objectivo a cumprir até 2020.
A ideia é transformar uma área do país que está a ser severamente afectada pela crise financeira, e que até à data tem vivido sobretudo das exportações, num “importante centro de inovação”, explica a Xinhua, citando o anúncio da entidade que define as políticas macroeconómicas da China.
O plano compreende a criação, no espaço dos próximos três anos, de cerca de cem laboratórios estatais para a inovação na área da engenharia, bem como da pesquisa e do desenvolvimento.
Em 2012, deverão estar a funcionar entre três a cinco centros de desenvolvimento de alta tecnologia, cujo objectivo é gerarem 100 mil milhões de yuan em produção industrial. A meta é conseguir que, em 2020, as indústrias de alta tecnologia gerem, pelo menos, 30 por cento das produções totais da região.

Da oficina para o laboratório

Esta nova definição do que deverá ser a zona do Delta do Rio das Pérolas no contexto global da China não surpreende totalmente José Luís Sales Marques, presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau (IEEM), que recorda que se fala na transformação do papel do país há já um par de anos. “É a China a querer passar de oficina do mundo para o estúdio do mundo.”
Para Sales Marques, este plano que agora foi divulgado significa que Pequim fez uma “reavaliação da melhor forma de integrar o país no mundo” actual. Embora a crise financeira tenha levado a China a apostar no desenvolvimento do mercado interno – opção que o presidente do IEEM considera acertada – tal não significa que deixe de pensar na abertura ao mundo, até porque “o factor externo foi sempre muito importante para o desenvolvimento económico”.
Porém, com esta decisão de investimento nas altas tecnologias, o país terá possibilidade de “fazer uma reconversão do seu papel, passando de uma economia exportadora com um valor acrescentado relativamente baixo, para uma economia com produtos e serviços de elevado valor acrescentado”.
Historicamente, o Sul da China foi a grande porta para o mundo. Houve uma altura em que as atenções ao nível do desenvolvimento industrial se viraram para Xangai, mas a área do Delta do Rio das Pérolas voltará a ser, trinta anos depois de uma experiência que se revelou bem sucedida, o balão de ensaio do país.
“É uma análise feita com muito realismo, tendo em conta o que a zona do Sul pode oferecer àquilo que é o mundo de hoje”, entende Sales Marques. Não obstante ser um mundo em redefinição, com muitas certezas deitadas por terra devido à crise financeira internacional, certo é que, para o responsável máximo pelo IEEM, a área onde Macau se integra oferece aquilo que o resto da China não terá: a diversidade.
“Xangai terá mais capacidades em termos de base industrial, mas nós temos mais variedade.” Uma combinação entre Macau, Hong Kong e a província de Guangdong permite, em termos gerais, uma oferta mais diversificada de bens e serviços. “Temos um enorme potencial”, salienta. Sales Marques acredita que “se for tudo bem orientado e canalizado, esta zona do mundo tem condições para, dentro de alguns anos, ser uma mega polis não só na Ásia mas no mundo”.

O problema dos recursos humanos

“A China tem enormes potenciais para desenvolver a área das novas tecnologias. Mas tudo depende de quem estiver a liderar os projectos.” Filipe Bragança, designer industrial especialista na concepção de automóveis, fala com conhecimento de causa. Há uma mão-cheia de anos que trabalha na província de Guangdong, precisamente na área das novas tecnologias.
O designer português criou na Universidade Sun Yat-sen de Cantão um laboratório de engenharia que está a trabalhar na concepção de veículos amigos do ambiente, construídos única e exclusivamente através de novas tecnologias. O trabalho quotidiano de Bragança leva-o a apontar os recursos humanos como o principal problema.
“A não ser que se mude quem está à frente dos projectos e haja uma maior liberdade de acção, o processo será lento”, avisa, lembrando que a Europa e o Japão, no que às tecnologias diz respeito, estão “trinta anos à frente da China”. No entanto, ressalva o designer, o país tem “uma enorme capacidade em termos de infra-estruturas e de meios, conseguem-se fazer coisas de um dia para o outro”.
O plano da Comissão da Reforma e do Desenvolvimento Nacional também não surpreende Filipe Bragança, que tem tido sinais nesse sentido. “Sabemos que o Governo está disposto a apoiar-nos e quer avançar mais rapidamente”, diz o criador do chamado “táxi de Cantão”, um veículo totalmente amigo do ambiente, que ainda não começou a ser produzido, embora já esteja em fase de testes – são as tais “burocracias” que o país tem que conseguir ultrapassar para conferir um novo dinamismo a este tipo de indústrias.

O papel da criatividade

Transformar o Delta do Rio das Pérolas num grande laboratório exige sobretudo criatividade em termos práticos, a funcionar sem obstáculos de natureza administrativa. Filipe Bragança tem também as suas dúvidas em relação à actual capacidade de inovação de quem trabalha neste ponto do planeta. “Em termos de execução, há pessoas excelentes. Quanto à inovação e à criatividade, ainda estão muito verdes”, sublinha.
Sales Marques vinca igualmente a importância da criatividade, mas no sentido de que poderá ser uma mais-valia para Macau neste enquadramento regional, caso a RAEM seja capaz de aproveitar a oportunidade. “Hoje em dia, a criatividade vai além da abordagem artística. O conceito de inovação faz com que os produtos tenham valor acrescentado, permite que sejam mais competitivos.”
Recordando que Macau teve sempre um papel de grande importância no contacto da China com o mundo, o presidente do IEEM critica o facto de a RAEM ter sido um “pouco preguiçosa” na questão da internacionalização. Para que Macau se inscreva neste conceito de “globalmente competitivo”, é preciso deixar de contar apenas com as benesses que a terra foi tendo. “Temos que fazer um esforço maior, conquistar mercados, olhar para fora. Só assim é que se desenvolve uma cidade internacional”, aponta.
“Temos que nos abrir ao exterior, dando valor ao que já temos, valorizando os jovens que voltam e que infelizmente não têm muitas oportunidades porque são triturados pela burocracia”, critica. “É preciso aceitar a ‘instabilidade’ que a criatividade gera”, aconselha.
Ainda no contexto do posicionamento da China no mundo e do impacto para a RAEM, o responsável pelo Instituto de Estudos Europeus recorda que Macau tem funções específicas no relacionamento com o Velho Continente e com o espaço lusófono que devem ser aproveitadas. “É um bom argumento para que a RAEM tenha um papel mais importante dentro desta estratégia.”

Isabel Castro, in Ponto Final

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