Exposição “O Idiota”, de José Drummond, é inaugurada na sexta-feira

Incursões pela memória que coloca questões

É um urso que nunca se repete, com fundos coloridos mais ou menos geométricos. São nove óleos e acrílicos sobre tela em que, de uma forma mais ou menos irónica, se levantam questões para as quais não temos respostas. É o medo do pudor, da falta de maturidade, o receio do ridículo, desmontados por José Drummond. Ao PONTO FINAL, o artista explica de onde vem “O Idiota” e analisa o cenário cultural de Macau. Que melhorou mas, ainda assim, continua imberbe.

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– O que é “O Idiota”?
José Drummond – “O Idiota” vem na sequência dos trabalhos anteriores, nomeadamente de “O Contador de Histórias”, no qual fiz um retorno à pintura. “O Idiota” persegue essa linha, é uma exposição composta por nove pinturas e por uma vídeo-instalação.
– Há um elemento comum nestes quadros. De onde vem o “teddy bear”? Porquê um urso?

J.D. – Em geral, gosto de trabalhar numa área um bocado difusa quando parto para as ideias. Nos tempos mais recentes, desde “O Intruso”, tenho adoptado a estratégia de começar a trabalhar a partir de uma palavra e de, a partir daí, explorar a possibilidade dessa palavra ser um personagem. Em “O Intruso” era uma figura democrática que entrava em fotografias de Estado. Depois, em “O Pintor”, foi outro personagem, e daí por diante. Trabalhei muito sobre o media do vídeo, penso que isso também será importante. De alguma forma, tenho tido ambição de ultrapassar aquilo que será normal quando se pensa na utilização de determinado material – interessa-me essa política da expressão, a política da representação, o que é ao certo uma coisa e porque é que poderá ser outra. Quando volto à pintura, com “O Contador de Histórias”, é uma exposição que são 16 “frames” de uma figura feminina que está a dormir. Teoricamente há uma ligação representacional com o vídeo. Em “O Idiota”, acabei por levar isso a um ponto mais lato, porque há uma figura de um “teddy bear” mas nenhum deles é o mesmo, existem várias expressões, os fundos são todos diferentes, não seguem uma unidade. Acabei por me deixar ir muito mais pela via da pintura mas penso que todas elas são muito cinemáticas, o que acabo por ver como sendo a mesma ligação que continuo a ter com o vídeo.
– Neste regresso à pintura o vídeo continua então a estar presente.
J.D. – Não foi muito planeado, porque quando parto para estas ideias faço-o sempre com esse espaço de liberdade para ver até onde posso ir, até que depois me começam a interessar determinadas coisas e então vou por aí. Mas, voltando à figura de “O Idiota” e porquê a escolha do conceito e o que é que ele implica, o idiota em geral é uma figura à qual se atribui alguma infantilidade, alguma inexperiência e um estado de inadaptação com o mundo exterior. É aquela figura que ninguém quer assumir que pode ser. Penso que foi por essa via que cheguei à figura do “teddy bear”, que aparece como o reflexo dessa posição que ninguém quer assumir. Mas todos nós gostamos muito de lembrar que bom seria ser criança e ter um “teddy bear” para falar com ele. Há aí esse dualismo, apesar de ter um fundo irónico, porque as pinturas acabam por ser semi-irónicas, com a figura do urso. Mas existe esse ponto de contraste e de dualidade, porque cada uma das pinturas tem nomes profundamente existencialistas. Há uma que se chama “Who are we?”. É uma sequência de nove frases que termina com “What proof do we have this is not a dream?”. Há esse lado da tal questão quase fundamental, para a qual continuamos sem grandes respostas, que acaba por nos levar também a esse estado puro de nos sentirmos uns pequenos ursos, uns pequenos “teddy bear”, de precisarmos desse elemento que nos continua a ligar a uma memória saudável – ou não – mas que é uma memória que coloca questões.
– “O Intruso” foi um trabalho com base na fotografia, depois houve uma incursão pelo vídeo e, de algum tempo para cá, o regresso à pintura. Aconteceu naturalmente? Foi uma necessidade? Está a saber bem?
J.D. – Está-me a saber optimamente. Foi muto repentinamente. Terá sido em Janeiro do ano passado que, sem estabelecer grandes metas iniciais, comprei uma série de telas e de óleos e decidi passar uns tempos no ateliê a pintar. Se o processo se tornou apaixonante para a criação de “O Contador de Histórias”, porque foi o retorno a algo que tinha praticado muito intensamente durante o período inicial como artista, com “O Idiota” a minha pintura em si dá um outro salto, porque é muito mais trabalhada do que na exposição anterior. Envolve preocupações formais de luz e de cor que anteriormente não tinha.
– Nesta próxima fase, a tela poderá continuar a ser o suporte do trabalho?
J.D. – Penso que sim. Não tenho a certeza de que “O Idiota” fique resolvido nesta exposição.
– Esta exposição é comissariada por James Chu e estará na galeria de São Paulo, que neste último ano tem proporcionado uma grande dinâmica aos artistas de Macau. Sendo a primeira mostra a solo neste espaço, como é expor no contexto específico do que é a Art for All (AFA)?
J.D. – Acompanhei o processo da galeria de São Paulo desde o início, porque estou envolvido na associação, a AFA, e se nos temos tentado superar, as coisas têm corrido bem. Acho que tem sido óptimo. É uma exposição que já estava a preparar há algum tempo, pelo que, na minha cabeça, está muito amadurecida nesse contexto. O trabalho que James Chu tem feito ao conseguir atrair as vontades dos artistas para estarem neste projecto tem sido também primordial para que nós, como artistas, consigamos imaginar que temos finalmente espaço para apresentar as coisas um bocado como as vemos, sem os constrangimentos que existiam anteriormente das exposições terem sempre um lado muito institucional.
– É um comissariado mais livre, portanto.
J.D. – É uma galeria. Como se sabe, as vendas em Macau continuam a ser as mesmas, não houve grande alteração – ou seja, zero – mas a realidade é outra. Agora há finalmente um espaço onde os artistas podem expor e até vender, sem a ideia de que se está associado a um restaurante ou a uma livraria, ou a uma fundação ou qualquer outra entidade. É uma galeria, como nos lugares normais.
– Apesar das vendas continuarem a ser as mesmas, há um maior interesse em torno da arte em Macau, potenciado também pela dinâmica da AFA?
J.D. – Penso que sim. A pouco e pouco terá os seus frutos. Não atribuo o dinamismo cultural só à AFA. Tem havido um dinamismo cultural diferente na cidade. A AFA é um dos produtos desse dinamismo que começou em vários núcleos. É muito importante, a AFA conseguiu até abrir uma galeria em Pequim. É algo que há um ano não passaria pela cabeça da maior parte dos artistas – a possibilidade de poderem expor em Pequim via AFA. Há um dinamismo das pessoas que têm conseguido encontrar estes núcleos e, assim, as coisas têm aumentado. Os vários núcleos continuam activos.
– Mas continua-se também a criticar a falta de qualidade do trabalho dos artistas de Macau. James Chu falava recentemente da necessidade de se melhorar o que se faz. Concorda?
J.D. – Precisamos de ser exigentes, sim.
– Macau pode evoluir em termos de qualidade artística sem haver escolas de arte e centros de formação?

J.D. – É uma questão política. Para mim, mais importante do que Macau ter uma escola de arte, seria a organização de um grande evento – à escala regional, para começar, mas eu iria logo para a escala mundial -, ligado às artes plásticas ou ao cinema. Podemos falar do mesmo em relação à arquitectura: porque é que não há uma escola de arquitectura em Macau? A arquitectura é um exemplo vivencial que temos observado, esta Macau dos nossos tempos está em constante mudança, nada permanece durante muito tempo com a mesma figura, e fala-se menos da escola de arquitectura, que seria primordial. Para mim, associadas à escola de arquitectura surgiriam, naturalmente, outras escolas ligadas ao desenho. O Governo deveria pensar – e é o tal debate que nunca é feito, porque o Governo defende-se sempre no Macau património, mas esquecemo-nos de que o património real são as pessoas e os artistas que vivem na cidade – no ambiente que se consegue criar à volta da cidade, e que não pode ser reduzido a um “Passeio dos Alegres”, que é o que chamo ao passeio do património. Vão para lá umas excursões e não há mais nada. Macau cultural não pode ser reduzido a um passeio. O Governo deveria pensar em organizar um festival, uma bienal. O que é feito da Bienal de Macau, que ficou reduzida a uma ideia local, mas em relação à qual se falou da possibilidade de se alargar? Porque é que não se reorganiza a Bienal de Macau, mas com dimensão numa outra escala? Olhamos para Xangai e para Pequim e vemos que tudo aconteceu nos últimos dez anos – os mesmos dez anos da RAEM. Obviamente que há muita mais gente e aí surge a tal defesa de que há mais artistas locais para fazerem o “back-up” para situações deste género, mas em Veneza a população é menor do que em Macau e tem uma bienal há mais de 150 anos. Não nos podemos esquivar em pequenas coisas. Macau tem todo o potencial, tem espaços, hotéis, tem tudo para fazer um festival cultural como deve ser, seja na área das artes plásticas, seja no cinema ou teatro. Não o tem feito. Seria um ponto em que Macau se poderia colocar à frente.
– A cultura de Macau ainda está, de certa forma, na fase de “O Idiota”, do “teddy bear”?
J.D. – Está muito imberbe.

Isabel Castro, in Ponto Final

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